Economia chinesa desacelera crescimento no 2º trimestre
BBC Brasil, 15 de julho, 2010
O ritmo da recuperação da economia chinesa desacelerou no segundo trimestre deste ano em comparação com a taxa de crescimento anual dos três meses anteriores.
Ritmo da economia chinesa afetará retomada econômica global
A economia cresceu 10,3% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. No primeiro trimestre, o crescimento anual da economia chinesa havia sido de 11,9%.
A desaceleração foi atribuída às medidas do governo chinês para conter uma bolha de crédito e segurar a rápida valorização dos imóveis no país.
Apesar da desaceleração, o país ainda está no caminho para se tornar a segunda maior economia do planeta até o fim do ano.
Restrições
As autoridades impuseram restrições no volume de empréstimos e investimentos para conter o aumento no preço das casas e o endividamento dos bancos públicos.
Ao divulgar os números da economia, o Escritório Nacional de Estatísticas chinês destacou o resultado até o meio do ano. Nos primeiros seis meses de 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) do país chegou a US$ 2,55 trilhões, um crescimento de 11,1% em relação ao mesmo período do ano passado.
A meta do governo para o ano é de 8%, mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o crescimento chinês alcance 10,5% em 1010. Esse nível de crescimento levaria a China a ultrapassar o Japão, atualmente a segunda maior economia do planeta após os Estados Unidos.
Em dados divulgados nesta quinta-feira, o Banco Central japonês disse esperar um crescimento de 2,6% em 2010, após quedas de 5,2% em 2009 e 1,2% em 2008. Já a China, mesmo durante a crise, nunca cresceu menos de 9% durante esse período.
Ritmo de recuperação
Analistas acompanham a evolução da economia chinesa, cujo demanda por produtos de consumo, infraestrutura e commodities afetará as vendas de empresas em todo o mundo e, por consequência, o ritmo de recuperação da economia global.
Nos primeiros seis meses do ano, o levantamento do escritório de estatísticas da China mostrou que as vendas no varejo cresceram 18,2% no país em comparação com o mesmo período no ano anterior, com destaque para as vendas de veículos (aumento de 37%) e equipamentos domésticos (29%).
No início do ano passado, o governo chinês pôs em vigor uma série de medidas para fomentar a recuperação econômica, que incluiu subsídios para equipamentos domésticos e incentivos fiscais para a compra de carros.
O porta-voz do escritório de estatísticas, Sheng Laiyun, disse que a desaceleração econômica de agora "será benéfica para a economia, porque evitará um crescimento muito rápido e o superaquecimento (econômico)".
Nos primeiros seis meses do ano, a inflação chinesa ficou em 2,6%, abaixo do teto de 3% fixado pelo governo.
Já os números da renda também demonstraram crescimento nos primeiros seis meses do ano: 7,5% entre os moradores das cidades (cerca de 9,8 mil yuans ou US$ 1.450 per capita, descontada a inflação) e 9,5% entre os moradores das áreas rurais (cerca de 3 mil yuans ou US$ 455 per capita, descontada a inflação).
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Thursday, July 15, 2010
Tuesday, May 25, 2010
Riscos de uma desaceleracao chinesa - Rodrigo Constantino
Análise
Os riscos de uma desaceleração acentuada do crescimento chinês
Rodrigo Constantino
25/05/2010
Analisar a economia chinesa é uma tarefa complicada, por sua complexidade e falta de transparência. Mas, devido à sua enorme importância no cenário mundial, alguma estimativa se faz necessária. Economistas começam a identificar sinais de espuma, principalmente no mercado imobiliário chinês. Se o alerta estiver correto, os riscos para países emergentes como o Brasil, muito dependentes da demanda chinesa, não podem ser menos prezados.
A China apresenta mudanças estruturais, experimentando tardiamente sua revolução industrial. Com mão de obra barata e abundante e uma poupança gigantesca, os ganhos de produtividade garantem uma vantagem comparativa no modelo de exportação adotado pelo país. Mas esse modelo apresenta suas falhas, e alguns pilares não são sustentáveis.
O fato de quatro bancos estatais concentrarem o crédito faz com que as decisões de investimento tenham um peso político elevado demais. Além disso, o foco obsessivo no crescimento tem feito com que governos locais adotem incentivos errados, com investimentos pouco rentáveis ou mesmo desnecessários. Cada província precisa apresentar números crescentes e existem casos até de “cidades fantasmas”. Construir casas e pontes onde sequer há demanda, eis um efeito perverso do modelo chinês.
Quase toda bolha especulativa parte de fundamentos sólidos. A trajetória chinesa possui aspectos econômicos interessantes, e seu espetacular crescimento pode criar o ambiente propício ao exagero. Foi assim com as ferrovias no século XIX, o rádio nos anos 1920 e a internet recentemente. Há também, por trás de muitas bolhas, uma fé cega na competência das autoridades.
Muitos acreditam que o governo chinês será capaz de controlar seus excessos. Mesmo com inflação crescente, por conta de uma expansão monetária de dois dígitos, os investidores assumem que as medidas administrativas serão suficientes para conter o avanço dos preços, sem precisar de um forte aumento dos juros.
A taxa de câmbio artificialmente controlada é outro pilar frágil do modelo. Taxas fixas estiveram por trás de crises como a da Argentina e da Ásia. O crédito excessivo, estimulado pela baixa taxa de juros, planta as sementes dos problemas futuros. Novos especuladores são atraídos pelo crescimento da economia, e eles adotam uma postura negligente em relação aos riscos, contando sempre com o resgate do governo em caso de crise.
Há claros sinais de espuma na economia chinesa, sobretudo em infraestrutura e no setor imobiliário. Alguns aeroportos menores, por exemplo, operaram com a metade da capacidade no ano passado. Existem indícios de excesso de capacidade na construção de navios, aço, cimento e ferro. A corrupção parece galopante, o que é esperado quando o governo concentra tanto poder e recurso.
Governos locais criaram veículos fora do balanço para garantir financiamento aos investimentos em suas regiões, o que pode gerar problemas sérios, caso a economia passe por uma desaceleração. O preço das casas sobe em parar, mesmo em relação à renda. Quando se observa os principais centros, como Xangai e Beijing, a situação é ainda mais alarmante, com aumentos de até 60% em apenas um ano. Mais de 20% dos empréstimos bancários foram destinados a esse setor.
Outro indicador importante é o excesso de otimismo nas projeções da maioria dos analistas. Livros são escritos sobre como a China será rapidamente a maior potência mundial, superando os Estados Unidos e a Europa. O “modelo chinês” passa a ser sinônimo de eficiência. O acúmulo de reservas, acima de US$ 2 trilhões, passa uma ideia de invencibilidade. Tudo isso nos remete à euforia com o Japão nos anos 1980.
Caso a economia chinesa realmente esteja passando por uma fase de espuma, os investidores precisam ficar bastante alertas aos riscos que isso representa. Afinal, a participação chinesa no consumo das principais matérias-primas é significativa. Dependendo da commodity, a China já representa de 40% a 50% da demanda mundial. Se o crescimento chinês se mostrar insustentável nesses patamares, a queda abrupta na sua demanda fará com que os preços das principais commodities desabem, prejudicando inúmeros países emergentes, como o próprio Brasil. Eis um risco que não pode ser ignorado pelos investidores.
Os riscos de uma desaceleração acentuada do crescimento chinês
Rodrigo Constantino
25/05/2010
Analisar a economia chinesa é uma tarefa complicada, por sua complexidade e falta de transparência. Mas, devido à sua enorme importância no cenário mundial, alguma estimativa se faz necessária. Economistas começam a identificar sinais de espuma, principalmente no mercado imobiliário chinês. Se o alerta estiver correto, os riscos para países emergentes como o Brasil, muito dependentes da demanda chinesa, não podem ser menos prezados.
A China apresenta mudanças estruturais, experimentando tardiamente sua revolução industrial. Com mão de obra barata e abundante e uma poupança gigantesca, os ganhos de produtividade garantem uma vantagem comparativa no modelo de exportação adotado pelo país. Mas esse modelo apresenta suas falhas, e alguns pilares não são sustentáveis.
O fato de quatro bancos estatais concentrarem o crédito faz com que as decisões de investimento tenham um peso político elevado demais. Além disso, o foco obsessivo no crescimento tem feito com que governos locais adotem incentivos errados, com investimentos pouco rentáveis ou mesmo desnecessários. Cada província precisa apresentar números crescentes e existem casos até de “cidades fantasmas”. Construir casas e pontes onde sequer há demanda, eis um efeito perverso do modelo chinês.
Quase toda bolha especulativa parte de fundamentos sólidos. A trajetória chinesa possui aspectos econômicos interessantes, e seu espetacular crescimento pode criar o ambiente propício ao exagero. Foi assim com as ferrovias no século XIX, o rádio nos anos 1920 e a internet recentemente. Há também, por trás de muitas bolhas, uma fé cega na competência das autoridades.
Muitos acreditam que o governo chinês será capaz de controlar seus excessos. Mesmo com inflação crescente, por conta de uma expansão monetária de dois dígitos, os investidores assumem que as medidas administrativas serão suficientes para conter o avanço dos preços, sem precisar de um forte aumento dos juros.
A taxa de câmbio artificialmente controlada é outro pilar frágil do modelo. Taxas fixas estiveram por trás de crises como a da Argentina e da Ásia. O crédito excessivo, estimulado pela baixa taxa de juros, planta as sementes dos problemas futuros. Novos especuladores são atraídos pelo crescimento da economia, e eles adotam uma postura negligente em relação aos riscos, contando sempre com o resgate do governo em caso de crise.
Há claros sinais de espuma na economia chinesa, sobretudo em infraestrutura e no setor imobiliário. Alguns aeroportos menores, por exemplo, operaram com a metade da capacidade no ano passado. Existem indícios de excesso de capacidade na construção de navios, aço, cimento e ferro. A corrupção parece galopante, o que é esperado quando o governo concentra tanto poder e recurso.
Governos locais criaram veículos fora do balanço para garantir financiamento aos investimentos em suas regiões, o que pode gerar problemas sérios, caso a economia passe por uma desaceleração. O preço das casas sobe em parar, mesmo em relação à renda. Quando se observa os principais centros, como Xangai e Beijing, a situação é ainda mais alarmante, com aumentos de até 60% em apenas um ano. Mais de 20% dos empréstimos bancários foram destinados a esse setor.
Outro indicador importante é o excesso de otimismo nas projeções da maioria dos analistas. Livros são escritos sobre como a China será rapidamente a maior potência mundial, superando os Estados Unidos e a Europa. O “modelo chinês” passa a ser sinônimo de eficiência. O acúmulo de reservas, acima de US$ 2 trilhões, passa uma ideia de invencibilidade. Tudo isso nos remete à euforia com o Japão nos anos 1980.
Caso a economia chinesa realmente esteja passando por uma fase de espuma, os investidores precisam ficar bastante alertas aos riscos que isso representa. Afinal, a participação chinesa no consumo das principais matérias-primas é significativa. Dependendo da commodity, a China já representa de 40% a 50% da demanda mundial. Se o crescimento chinês se mostrar insustentável nesses patamares, a queda abrupta na sua demanda fará com que os preços das principais commodities desabem, prejudicando inúmeros países emergentes, como o próprio Brasil. Eis um risco que não pode ser ignorado pelos investidores.
Tuesday, March 16, 2010
345) China: crescimento, inflacao e cambio
Com retorno da inflação, Pequim deve subir juros e valorizar um pouco o iuan
Financial Times
Valor Econômico, 16.03.2010
A China está de volta à situação anterior ao colapso do Lehman Brothers. Como no início de 2008, antes que a falência do banco americano desencadeasse a crise financeira mundial, há agora o temor de que a economia chinesa esteja crescendo rápido demais. O crédito está expandindo rapidamente, há sinais de bolhas de ativos por toda parte e uma inflação dos preços ao consumidor está ameaçando afetar as pessoas comuns.
Números recentes mostram que em fevereiro os preços ao consumidor subiram 2,7% em relação ao ano anterior, perto da meta oficial de 3%. Dado o enorme aumento da oferta monetária no ano passado, há riscos de que a inflação escape de controle. Pensar de outra forma equivaleria a argumentar que os fundamentos da economia chinesa continuam fragilizados. É verdade que há dúvidas sobre como a economia andaria sem o estímulo do governo. Mas a produção industrial parece robusta - com alta de 20% tanto em janeiro como em fevereiro. Além disso, há poucos sinais de oferta excessiva da indústria. Longe disso: em fevereiro, os preços das fábricas subiram 5,4%. O premiê chinês, Wen Jiabao, admitiu no domingo que a inflação é uma ameaça à estabilidade social.
É justo reconhecer que as autoridades chinesas têm frequentemente sido mais hábeis do que as ocidentais em seu esforço para equilibrar o crescimento com controle de preços. Neste ano, as autoridades já elevaram por duas vezes o compulsório dos bancos e aumentaram o valor da entrada exigida nas compras de terrenos, para frear a construção. Mas esse tipo de ajuste improvisado, embora às vezes eficaz, pode já não ser suficientes. Uma das razões é que o dinheiro do plano de estímulo está vazando para a economia. Há muita liquidez em busca de poucos ativos. De uma perspectiva mais estrutural, parece que a aparentemente interminável oferta de mão de obra jovem e barata na China está chegando ao fim. A população chinesa começará a envelhecer a partir de 2015. Fábricas em lugares como Guangdong estão brigando para atrair trabalhadores. O resultado é inflação de salários.
O que Pequim pode fazer? Uma opção é aumentar as taxas de juro. Uma aposta cada vez mais segura é de que o banco central elevará um pouco as taxas antes do fim do segundo trimestre. A outra opção é deixar o iuan voltar a valorizar, após uma pausa de 20 meses. Wen disse no domingo que as cobranças de outros países para que a China valorize sua moeda têm intenções protecionistas. Mas a China não precisa elevar seu câmbio para agradar Washington. Deveria fazê-lo para avançar rumo a seus próprios objetivos declarados: estimular seu consumo e sua economia doméstica. Uma valorização, embora não seja uma panaceia, também ajudaria a combater a inflação, ao baratear as importações. É de interesse da própria China iniciar uma valorização modesta. O despertar inflacionário constitui a desculpa perfeita.
Financial Times
Valor Econômico, 16.03.2010
A China está de volta à situação anterior ao colapso do Lehman Brothers. Como no início de 2008, antes que a falência do banco americano desencadeasse a crise financeira mundial, há agora o temor de que a economia chinesa esteja crescendo rápido demais. O crédito está expandindo rapidamente, há sinais de bolhas de ativos por toda parte e uma inflação dos preços ao consumidor está ameaçando afetar as pessoas comuns.
Números recentes mostram que em fevereiro os preços ao consumidor subiram 2,7% em relação ao ano anterior, perto da meta oficial de 3%. Dado o enorme aumento da oferta monetária no ano passado, há riscos de que a inflação escape de controle. Pensar de outra forma equivaleria a argumentar que os fundamentos da economia chinesa continuam fragilizados. É verdade que há dúvidas sobre como a economia andaria sem o estímulo do governo. Mas a produção industrial parece robusta - com alta de 20% tanto em janeiro como em fevereiro. Além disso, há poucos sinais de oferta excessiva da indústria. Longe disso: em fevereiro, os preços das fábricas subiram 5,4%. O premiê chinês, Wen Jiabao, admitiu no domingo que a inflação é uma ameaça à estabilidade social.
É justo reconhecer que as autoridades chinesas têm frequentemente sido mais hábeis do que as ocidentais em seu esforço para equilibrar o crescimento com controle de preços. Neste ano, as autoridades já elevaram por duas vezes o compulsório dos bancos e aumentaram o valor da entrada exigida nas compras de terrenos, para frear a construção. Mas esse tipo de ajuste improvisado, embora às vezes eficaz, pode já não ser suficientes. Uma das razões é que o dinheiro do plano de estímulo está vazando para a economia. Há muita liquidez em busca de poucos ativos. De uma perspectiva mais estrutural, parece que a aparentemente interminável oferta de mão de obra jovem e barata na China está chegando ao fim. A população chinesa começará a envelhecer a partir de 2015. Fábricas em lugares como Guangdong estão brigando para atrair trabalhadores. O resultado é inflação de salários.
O que Pequim pode fazer? Uma opção é aumentar as taxas de juro. Uma aposta cada vez mais segura é de que o banco central elevará um pouco as taxas antes do fim do segundo trimestre. A outra opção é deixar o iuan voltar a valorizar, após uma pausa de 20 meses. Wen disse no domingo que as cobranças de outros países para que a China valorize sua moeda têm intenções protecionistas. Mas a China não precisa elevar seu câmbio para agradar Washington. Deveria fazê-lo para avançar rumo a seus próprios objetivos declarados: estimular seu consumo e sua economia doméstica. Uma valorização, embora não seja uma panaceia, também ajudaria a combater a inflação, ao baratear as importações. É de interesse da própria China iniciar uma valorização modesta. O despertar inflacionário constitui a desculpa perfeita.
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