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Sunday, October 16, 2011

Investindo em portos, na China e no Brasil: covardia comparar...

Para mim, a matéria, e mais ainda, o esforço em atrair esses investimentos chineses, são altamente representativos de quão patético é o Brasil no plano do investimento internacional.
Nós somos verdadeiros caipiras.
Sorry folks, mas é verdade.
Paulo Roberto de Almeida


Brasil tenta atrair investimentos chineses em portos
Seminário organizado pelo Itamaraty em Xangai apresentou projetos em Pará, Espírito Santo, Bahia e Amazonas
FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A XANGAI da FSP, 15/10/2011

No porto de Santos, a licença ambiental para o terminal Embraport, ainda em obras, levou oito anos para ficar pronta. Em Xangai, o porto de Yangshan, que movimenta dez vezes mais contêineres do que o congênere brasileiro, foi construído em apenas dois anos e meio.
A comparação desanimadora é de um dos integrantes da comitiva do porto de Santos após visita a Yangshan (28 milhões de contêineres/ano).
Ontem, o grupo participou de um seminário organizado pelo Itamaraty em Xangai para atrair investidores chineses a portos brasileiros.
"O porto aqui fica numa ilha que tinha 2,5 km2. Aumentaram para 15 km2 com aterro e construíram uma ponte de 32 km em dois anos e meio. A licença ambiental ficou pronta em seis meses. Em Santos, foram oito anos de espera para a licença ambiental de apenas um terminal", disse o presidente do Conselho de Autoridade Portuária do Porto de Santos, Sérgio de Aquino.
O diretor-presidente do porto de Santos, José Roberto Serra, disse que uma das explicações para a diferença é que o governo chinês detém todo o poder de decisão na área de infraestrutura. No Brasil, diz, há o fracionamento das autorizações entre diversas instâncias.
"Os investidores perguntam sobre o modelo brasileiro e ficam assustados com o prazo da Lei de Licitações, que é de um ano e meio."
O executivo disse que a China tem uma presença crescente em Santos: desde o ano passado, é o país que mais movimentou cargas no porto. No cais, praticamente todo o maquinário foi comprado da ZPMG. E duas empresas do gigante asiático prestam serviços de dragagem e implosão de pedras.
No seminário de ontem foram apresentados projetos em quatro Estados: Pará, Espírito Santo, Bahia e Amazonas. Realizado num hotel, o seminário reuniu cerca de cem pessoas, com uma presença maior de brasileiros do que de chineses.

Saturday, September 4, 2010

Brasil-China: much ado about almost everything

A culpa pode até ser do Estado brasileiro, mas não pelas razões apontadas por esses pretensos especialistas em China.
Contrariamente ao que diz Delfim Neto, vários outros países já reconheceram a China como economia de mercado, mas o ponto não está aí. Quer se reconheça, ou não, a China como economia de mercado, seus produtos continuam e continuarão a ser imbatíveis no plano da competitividade internacional. O não reconhecimento funciona apenas para medidas de defesa comercial, ou seja, disfarçar a própria falta de competitividade colocando barreiras protecionistas discriminatórias contra os produtos chineses, que entram nos países porque simplesmente são mais baratos, não porque um país reconhece ou deixa de reconhecer a China como economia de mercado. De toda forma, se não for agora, será dentro de 3 ou 4 anos, quando a China terminar o período de transição regulado em seu protocolo de acesso e tiver de cumprir todas as regras da OMC, e aí os parceiros só poderão reconhecê-la como economia de mercado. Pode-se até argumentar que até lá ela vai continuar conquistando poições de mercado, o que é seu direito.
Quanto ao câmbio, simplesmente não é verdade que o câmbio está fixo em 7 yuans há cinco anos, não é verdade. Nesse período, o moeda chinesa já passou por duas fases de revalorização, o que implicou um movimento de quase 20%. Correto é dizer que a taxa está estável atualmente em torno de 6,7 yuans por dólar, mas já depois de uma valorização que a trouxe, justamente, de mais de 7 no ano passado (sendo que era mais de oito até 2006).
E não é pela nossa suposta valorização cambial que os produtos brasileiros não são competitivos. Os industriais, exportadores e economistas precisam parar de chorar e pedir desvalorização para passar a atuar nas verdadeiras causas da falta de competitividade do Brasil, começando por uma carga tributária extorsiva.
Por que é que os industriais não lutam contra o governo por causa disso? Só porque querem o dinheiro do BNDES? Querem créditos fiscais e isenções tributárias setoriais? Querem tarifas altas e mais proteção? Poltrões: deveriam atuar nas causas certas, não pedir políticas erradas e distorsivas.
Não é verdade, tampouco, que as empresas chinesas que estão exportando para o Brasil sejam estatais. Apenas algumas o são, e são as que importam, não as que exportam. É verdade que os chineses trabalham com pequenas margens de lucro, ganhando na quantidade, mas isso é um direito deles, e uma estratégia inteligente. É patético ver brasileiros reclamando de uma estratégia comercial legítima.
Os industriais brasileiros precisam parar de reclamar da China e atacar as causas corretas, que estão, sim, no Estado brasileiro, mas não pelas razões apontadas por eles...
Paulo Roberto de Almeida

Para analistas, invasão chinesa é culpa do Estado brasileiro
João Villaverde, de São Paulo
Valor Econômico, 01/09/2010

A competição comercial entre Brasil e China, que envolve importados chineses mais baratos que os equivalentes nacionais, e a conquista de outros mercados pelos chineses, não é culpa da China. O responsável pela sequência de derrotas entre os dois países nas relações mercantis é o Estado brasileiro. Essa é a avaliação de economistas e especialistas em comércio exterior presentes ontem no 7º Fórum de Economia, realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo.

"Apenas dois países, no mundo inteiro, acreditam que a China é uma economia de mercado. Um acredita com alguma dúvida: a China. O outro, de maneira convicta: o Brasil", afirma Antônio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura entre os anos de 1967 a 1985. Para Delfim, a política industrial, cambial e comercial chinesa não está errada. "Eles fazem o que qualquer país que quer crescer faz. O erro está aqui", diz o ex-ministro.

As críticas à estratégia adotada pelo Estado brasileiro, consensuais entre os analistas, estão centradas nas políticas econômica e comercial adotadas. Para eles, é preciso reduzir as taxas de juros brasileiras e permitir maior desvalorização cambial, que serviriam por tornar o crédito às empresas mais barato e ampliaria a remuneração oriunda das exportações. O câmbio chinês é fixo em torno de 7 yuans por dólar há cinco anos, enquanto o dólar oscila próximo ao patamar de R$ 1,70. As taxas de juros chinesas são de 2,47% ao ano, enquanto a Selic está fixada em 10,75% ao ano - hoje, o Banco Central anuncia a nova taxa.

Além disso, dizem os especialistas, o governo é "tímido" em fiscalizar a entrada de mercadorias subfaturadas provenientes da China. Segundo números apresentados por Roberto Giannetti da Fonseca, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o saldo entre vendas e compras internacionais de bens manufaturados saiu de superávit de US$ 5,1 bilhões, em 2006, para um déficit projetado de US$ 60 bilhões neste ano.

"Do jeito que está, o déficit da indústria de transformação atingirá US$ 100 bilhões em um ou dois anos. Não só a indústria precisa reverter sua produção para o mercado interno, porque o importado chinês chega mais barato e o câmbio para exportar está ruim, como também estamos perdendo mercado no exterior para os chineses", diz Giannetti da Fonseca.

Para Renato Amorim, ex-secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China e atualmente sócio-diretor da Strategus, o governo brasileiro tem olhado para o alvo errado. Amorim, que chegou ontem de viagem à China, avalia que a disputa se dá em terreno onde os chineses "obviamente" têm vantagens. "As empresas chinesas contratam ótimos engenheiros a US$ 400 por mês. Não temos como competir com isso", afirma Amorim, para quem a disputa não se dá entre empresas, mas entre companhias brasileiras e o Estado chinês.

"As empresas chinesas trabalham com margens muito apertadas, uma vez que não remuneram acionistas e não precisam dar lucro. Por quê? Simplesmente porque são estatais", diz Amorim.

O empresário Antônio Maciel Neto, presidente da Suzano, afirmou ao Valor que a desigualdade de condições se dá também na comparação entre custos para investimentos fixos. A planta da Suzano em Mucuri, no sul da Bahia, a maior unidade produtora de celulose da companhia, teve custo total de US$ 2 bilhões. "O mesmo projeto teria custo de capital US$ 70 milhões menor, por ano, se fosse feito na China", diz Maciel.

Para Vera Thorstensen, que acaba de retornar ao Brasil depois de 15 anos na assessoria econômica do governo brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, os chineses "não respeitam regra alguma". "Eles não respeitam o artigo 4 do FMI, que veta a manipulação cambial, além de terem pendurados uma série de ações antidumping e pedidos de salvaguardas comerciais", diz ela. Para Giannetti da Fonseca, o Brasil "ainda não sabe usar medidas antidumping ou de salvaguardas".

Saturday, August 7, 2010

Transporte ferroviario na China: progressos fantasticos

China terá 13.000 km de trens rápidos até 2020
por Cláudia Trevisan
Blog Estadão, 29.julho.2010
Seção: Economia

Enquanto o Brasil pena para construir o trem rápido de 518 km que deve ligar Rio, São Paulo e Campinas, a China anuncia que vai adicionar 6.000 km de linhas do tipio à sua rede até 2012. Com isso, vai quase dobrar a malha de alta velocidade, para 13.000 km, cifra que vai superar a soma do que existirá em todos os demais países juntos.

Essa febre de construção vai exigir o equivalente a R$ 202 bilhões de investimentos nos próximos dois anos, cifra quase quatro vezes maior que os R$ 55,7 bilhões que o Brasil destinará a todo o setor ferroviário.

Em pouco tempo, a China se transformou em um dos líderes globais na construção de trens rápidos e começa a colocar em prática a estratégia de exportar tecnologia e equipamentos ferroviários para outros países. Entre eles, está o Brasil, onde os chineses devem disputar o contrato do Trem de Alta Velocidade (TAV) com japoneses, sul-coreanos, franceses, espanhois e alemães.

A ofensiva do país asiático para internacionalizar sua indústria ferroviária foi lançada no ano passado e levou as gigantescas estatais do setor a buscarem negócios em todas as regiões do planeta.

Por enquanto, um dos maiores acordos é com a Argentina, que receberá US$ 12,5 bilhões em financiamentos e investimentos para expandir sua rede e recuperar as linhas de Buenos Aires. A condição é que os recursos sejam utilizados na compra de tecnologia e equipamentos da China.

Pequim começou sua incursão no setor ferroviário latino-americano em 2009, com um acordo para a construção 470 km de linhas entre as cidades venezuelanas de Tinaco e Anaco.

Atualmente, os chineses também tentam obter contratos nos Estados Unidos, Rússia, Arábia Saudita, Mianmar, Polônia, Índia, Quirguistão e Uzbequistão, segundo o Ministério das Ferrovias.

A eventual vitória chinesa na disputa pelo TAV entre Rio, São Paulo e Campinas transformará o Brasil em uma espécie de vitrine para venda de produtos e serviços de um setor visto como estratégico pelo governo de Pequim, mas cujo crescimento não é isento de controvérsia.

Os interessados na obra, avaliada em R$ 33 bilhões, devem entregar suas propostas em novembro. A escolha do vencedor está prevista para o mês seguinte.

A China desenvolveu grande parte de sua tecnologia de trens rápidos com a ajuda de empresas estrangeiras, que aceitaram realizar joint-ventures com estatais controladas por Pequim na esperança de ter acesso ao imenso mercado local.

As autoridades chinesas refutam a acusação de que se apropriaram de know-how externo de maneira indevida, mas reconhecem que a experiência estrangeira teve papel relevante para o desenvolvimento do país no setor.

Em documento distribuído a jornalistas ontem, o Ministério das Ferrovias afirmou que a China desenvolveu inovações originais, mas também fez “re-inovações”, depois de “importar, digerir e absorver” a tecnologia estrangeira.

“A China aplicou os frutos da civilização de trens de alta velocidade”, declarou em entrevista coletiva o engenheiro-chefe do ministério, He Huawu. Segundo ele, o país está disposto a compartilhar suas “conquistas” com o restante do mundo.

O Banco Mundial avalia que a transferência de tecnologia, aliada à experiência chinesa na operação de milhares de quilômetros de linhas, transformará a indústria ferroviária local em uma das mais avançadas do mundo. “Isso deve posicionar o país para competir internacionalmente quando outros países adotarem trens de alta velocidade”, destaca estudo da entidade também divulgado ontem.

O Ministério das Ferrovias vai mais longe e sustenta que o desenvolvimento da China nesse setor pode levar ao “renascimento” e à “revitalização” das ferrovias em todo o mundo.

A entrada da China na disputa internacional nesse setor terá um marco simbólico em dezembro, quando o país sediará o 7º Congresso Mundial de Alta Velocidade (Highspeed 2010), na primeira vez em que o evento ocorrerá fora da Europa.

Os investimentos ferroviários tiveram uma das maiores fatias no pacote de estímulo de US$ 586 bilhões anunciado pela China em novembro de 2008 para combater os efeitos da crise econômica global.

De acordo com o governo, a construção de ferrovias recebeu investimentos de US$ 89 bilhões no ano passado, que levaram ao consumo de 20 milhões de toneladas de aço e de 120 milhões de toneladas de cimento, além de criar 6 milhões de empregos em toda a cadeia produtiva do setor.

Thursday, July 29, 2010

Relacoes economico-comerciais Brasil-China - Marcos Caramuru de Paiva

Ainda desconhecido por chineses, Brasil vira oportunidade além do comércio
Marcos Caramuru
Folha de S. Paulo, 28.07.2010

O Brasil passou a ser visto na China como um país de oportunidades para investimentos, não só comércio.
Há quatro explicações. A primeira é a percepção de que, no vácuo da crise, as economias maduras passarão por um longo período de incerteza. A China precisa abrir o leque de parceiros.
A segunda vem do acrônimo Bric. Sem conhecer bem a nossa realidade, os empresários chineses nos veem como membros de um grupo que terá peso crescente. Percepção é tudo em suas decisões.
Eles não costumam valer-se de consultoria, nem se fiam em análises complexas sobre o local onde atuarão.
Em geral, têm dificuldades de entender as peculiaridades de uma economia de renda média como a nossa. Mas, se antes desanimavam, agora querem vencer obstáculos. A terceira razão é estratégica. A China precisa garantir o suprimento de bens que o Brasil tem em abundância, e considera não só comprar fazendas e minas mas investir em logística e infraestrutura.
Por fim, num país onde a taxa de poupança é da ordem de 50% do PIB, há mais recursos que projetos -ainda que as obras sejam muitas.
Os bancos e os fundos de investimentos estão sempre à caça de opções. Muitos poupadores desencantados com a poupança e as Bolsas querem alternativas.
O negócio Brasil passou a ser tão bem avaliado que grandes bancos estrangeiros estão fazendo esforço para mostrar que conhecem a nossa realidade e são os intermediários para ela. Alguns abriram mesas de operações em Xangai apenas para o Brasil.
Como até hoje só dois bancos brasileiros estão na China continental, com presença discreta, instituições estrangeiras com filiais ou subsidiárias nos mercados chinês e brasileiro simultaneamente aproveitam a deixa.
Nas próximas duas décadas, a China será uma economia industrial cada vez mais sofisticada e competitiva devido, sobretudo, ao fácil acesso a financiamento, à boa infraestrutura e ao esforço empresarial em inovação.
Os salários, ainda baixos em muitos locais, estão aumentando, e o yuan, no médio prazo, deve apreciar. As empresas brasileiras que souberem montar parcerias interessantes para operar na China, no Brasil e em terceiros mercados vão ganhar.
O mercado chinês seguirá tendo liquidez abundante.
Um país como o Brasil, que precisa de recursos externos para crescer a taxas altas, vai se beneficiar disso. O primeiro passo está dado, com acordos de cooperação como os do BB, Itaú, BNDES e Petrobras. Mas há mais adiante.
Exceto por atores grandes e politicamente fortes, as instituições chinesas autorizadas a investir no exterior ainda estão amadurecendo.
Se soubermos mostrar as oportunidades que nossas empresas oferecem, estaremos no caminho certo.

MARCOS CARAMURU DE PAIVA é cônsul-geral do Brasil em Xangai.

Tuesday, June 22, 2010

Brasil e China podem ampliar cooperação em CTeI - José Monserrat Filho

Brasil e China podem ampliar muito mais sua cooperação em CT&I
José Monserrat Filho
Jornal da Ciência e-mail, 21 junho 2010

"Brasil e China já têm breve mas produtiva história. Hoje, vislumbram larga e rica perspectiva de cooperação diversificada. Seu potencial vai bem além do que se vê em nossos dias"
José Monserrat Filho é chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do Ministério da Ciência e Tecnologia. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":

O Brasil decidiu reatar relações diplomáticas com a China apenas em 1975 - depois que os Estados Unidos já o tinham feito. Mas, nestes 35 anos, aconteceu algo incrível e irônico ao mesmo tempo. A China ultrapassou os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil.

Hoje, Brasil e China mantêm um regime de "parceria estratégica", aprovado de comum acordo em 1993 e motivo de orgulho para ambos. Cabe lembrar: eles assumiram este status especial em momento decisivo, buscando superar a primeira grande crise de seu relacionamento.

Em 1993, urgia salvar o programa espacial sino-brasileiro, adotado em 1988 e bem-sucedido nos primeiros anos - como primeiro acordo entre países em desenvolvimento envolvendo alta tecnologia -, mas quase cancelado no período de 1990 e 1991, por inadimplência do Brasil, sobretudo.

Restaurada a cooperação espacial, foram lançados, em período relativamente curto, três satélites da série Cbers - China-Brasil Earth Resources Satellite (Satélite Sino-Brasileiro de Observação de Recursos Naturais da Terra): o Cbers-1, em 1999; o Cbers-2, em 2002, e o Cbers-2B, em 2007.

O Brasil converteu-se em país sensoriador, perito em sensoriamento remoto por satélite - essencial para monitorar toda Amazônia. Mais ainda: tornou-se o maior distribuidor de imagens de satélite do mundo, abrindo acesso gratuito e fácil a todos os dados do Cbers. Basta baixar pela internet. Ao mesmo tempo, sistemas especiais de distribuição de imagens Cbers estão sendo montados para a América Latina e Caribe, e para a África.

Mas surgiu um problema: o Cbers-2B - lançado para impedir qualquer interrupção da cobertura entre o fim do Cbers-2, ocorrido este ano, e o início de funcionamento do Cbers-3 - acabou concluindo sua vida útil sem que o Cbers-3 tivesse sido lançado. Hoje não há nenhum Cbers ativo em órbita. O Cbers-3, que está sendo montado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, SP, deve ser lançado só em 2011. E o Cbers-4, em 2014.

O lançamento do Cbers-3 atrasou-se, principalmente porque o Brasil teve dificuldades de comprar no mercado mundial componentes para esse satélite, bloqueados pelos Estados Unidos por se tratar de satélite construído junto com a China. Washington estabelece restrições no comércio com a China de matérias consideradas sensíveis (uso duplo, para fins pacíficos e militares).

Não obstante, a cooperação espacial segue em frente. Mas o que ela mais precisa hoje é ganhar novos espaços. Avanço significativo seria a construção conjunta de um satélite radar, que pode observar a terra em condições bem melhores, varando barreiras climáticas. Este parece ser o maior desafio nas negociações atuais na área espacial entre os dois países. O acordo em torno de um satélite radar sinalizaria mudança qualitativa de patamar no programa sino-brasileiro.

Entretanto, já há clara consciência de que a colaboração Brasil-China não pode se limitar ao programa espacial. Nessa linha, em 2004, os dois países criaram o Comitê de Coordenação e Cooperação de Alto Nível (Cosban), de ampla abrangência. Em 2009, durante a visita à China do presidente Lula, aprovou-se o primeiro Plano de Trabalho em Ciência, Tecnologia e Inovação.

E, em abril deste ano, quando da visita ao Brasil do presidente da China, Hu Jintao, adotou-se ambicioso Plano de Ação Conjunta para cinco anos (2010-2014), visando diversificar e intensificar o trabalho conjunto dos dois países.

O Plano de Ação fixa sete objetivos gerais, dos quais destaco quatro: 1) "Ampliar e aprofundar as relações bilaterais em todas as áreas"; 2) "Coordenar melhor as iniciativas de cooperação em todas as áreas da Parceria Estratégica Brasil-China, bem como todos os seus instrumentos institucionais"; 3) "Estabelecer metas precisas e objetivas em cada uma das áreas de cooperação, baseadas em iniciativas específicas"; e 4) "Adotar visão estratégica sobre as relações bilaterais, a médio e longo prazo, diante dos desenvolvimentos na arena internacional".

Traduzido em miúdos, este último objetivo significa reconhecer que as relações Brasil-China podem ter implicações estratégicas na arena internacional. Isso não é nada trivial em matéria de presença ativa e protagonismo no mundo complexo do século XXI.

O Plano de Ação, além do mais, valoriza o papel do Subcomitê de Ciência e Tecnologia do Cosban, logo renomeado como "Subcomitê de Ciência, Tecnologia e Inovação". Afinal, a inovação no setor produtivo - e em toda a sociedade humana - é o grande desafio do nosso tempo.

Eis as áreas prioritárias do Plano de Ação: bioenergia e biocombustíveis, nanotecnologia e ciências da agricultura. O compromisso, aí, é de fortalecer a transferência de tecnologia e a realização de projetos conjuntos de pesquisa. No futuro, já se admite acrescentar as áreas de pesquisa e desenvolvimento na indústria têxtil, e de ensino e popularização da ciência.

Cabe salientar cinco importantes projetos de cooperação em curso hoje:

1) Programa de Bioenergia e Biocombustíveis, implementado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro através do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ); Universidade de Tsinghua; Academia de Ciências da Agricultura de Guangxi; e Academia Chinesa de Ciências da Agricultura Tropical (Catas);

2) Centro Brasil-China de Inovação Tecnológica para a Mudança de Clima e Novas Energias, em criação pela UFRJ e Universidade de Tsinghua para realizar projetos de pesquisa destinados a reduzir as emissões de gás estufa e a identificar novas fontes para biodiesel. O Brasil está investindo nesta iniciativa cerca de R$ 1,4 milhão, como ajuda inicial;

3) Centro Bilateral de Pesquisa e Inovação em Nanotecnologia, criado em 2009, com início de funcionamento marcado para este ano, devendo estudar, entre outras, as áreas de nanometrologia, encapsulação de medicamentos e nanomateriais;

4) Programa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Academia Chinesa de Ciências da Agricultura (CAAS) para criar laboratórios especializados em ambos os países, com pessoal próprio e com a missão de promover pesquisas básicas e aplicadas em biocombustíveis, biotecnologia e genética de plantas; e

5) Intercâmbio Acadêmico entre a Universidade Federal de Viçosa (Minas Gerais) e a Universidade de Agricultura de Pequim, a ser firmado em breve, para fomentar a cooperação nos campos de ensino e pesquisa em ciência, tecnologia e inovação em áreas agrícolas. Como parte do programa, as duas instituições planejam criar o Instituto Internacional de Segurança Alimentar e Redução da Pobreza, com a ativa participação de organizações intergovernamentais internacionais.

Assim, Brasil e China já têm breve mas produtiva história. Hoje, vislumbram larga e rica perspectiva de cooperação diversificada. Seu potencial vai bem além do que se vê em nossos dias. Brasileiros e chineses podem fazer muito mais do que fizeram até agora. E tudo para seu próprio bem e, tomara, em benefício também de um mundo mais inteligente, mais justo e mais próspero para toda a comunidade mundial, que disso precisa como o ar que respiramos.

Friday, June 4, 2010

Brasil exporta celulose para a China

China se torna maior mercado para celulose brasileira
Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo
quinta-feira, 3 de junho de 2010

País asiático produz 90 milhões de toneladas de papel por ano e quer se tornar um dos líderes mundiais do setor

XANGAI - Depois de se transformar no maior destino das exportações brasileiras de minério de ferro e soja, a China assumiu o primeiro lugar nas vendas de outra commodity, a celulose, com 34% dos embarques no primeiro quadrimestre deste ano. O porcentual é o dobro da participação que o país asiático tinha nas exportações do produto até o ano passado, quando sua demanda deu um salto de 135%, para 1,5 milhão de toneladas, uma participação de 33% no total.

Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Associação Brasileira de Papel e Celulose (Bracelpa), disse que os chineses começaram a aumentar suas compras no começo do ano passado, quando o preço internacional caiu em razão da crise mundial. Em junho de 2009 a cotação ficou em menos de US$ 400 a tonelada, comparada a US$ 840 do ano anterior. Atualmente já está em torno de US$ 920.

Segundo ela, a demanda chinesa assumiu natureza "estrutural" no segundo semestre, quando o país anunciou a instalação das três maiores máquinas de papel do mundo, uma das quais com capacidade de fabricar 1 milhão de tonelada por ano.

Em 2009, o Brasil respondeu por 50% das importações de celulose da China, que anualmente produz 90 milhões de toneladas de papel e quer se tornar um dos líderes mundiais do setor.

Para atender ao aumento da demanda chinesa e de outros países emergentes, as indústrias brasileiras de celulose planejam investir US$ 22 bilhões no período 2010-2016, o que poderá levar o Brasil da quarta para a terceira posição no ranking global, à frente da China.

O CEO da Suzano Papel e Celulose, Antonio Maciel Neto, disse anteontem em Xangai que a empresa investiu R$ 8 bilhões em duas novas fábricas, no Maranhão e no Piauí, que terão 50% de sua produção destinada à China.

A companhia produz 1,7 milhão de toneladas de celulose por ano e vai elevar o volume para 4,3 milhões de tonelas quando as duas plantas estiverem em operação, no fim de 2014. "A produção de papel na China cresce 4 milhões de toneladas por ano, o que é quase metade da produção total do Brasil, de 10 milhões de toneladas de papel", disse Maciel depois de encontro do Conselho Empresarial Brasil-China. Atualmente, 35% do que a Suzano produz de celulose é destinado à China.

Com os investimentos previstos para o período 2010-2016, Carvalhaes estima que a produção brasileira de papel poderá subir para 14 milhões de toneladas. A presidente da Bracelpa lembrou que o Brasil tem a maior floresta plantada do mundo, com 7 milhões de hectares, certificada por organismos internacionais.

Carvalhaes afirma que a produção brasileira atende à crescente exigência chinesa de usar processos industriais sustentáveis, em resposta à pressão internacional. "A China joga na atmosfera 12 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, o que faz com que o crescimento do país custe muito à humanidade em termos ambientais".

Além de ser certificada, a floresta plantada brasileira é formada basicamente por eucalipto, que é a árvore que mais absorve carbono, diz Carvalhaes. "Os 7 milhões de hectares de floresta retiram da atmosfera 1 bilhão de toneladas de carbono por ano", declarou.

Saturday, April 17, 2010

393) Entrevista Celso Amorim a jornal chines - Guangzhou Ribao

Segue abaixo tradução elaborada pela Embaixada em Pequim de entrevista do Ministro Celso Amorim publicada na edição de 14 de abril do Diário de Cantão ("Guangzhou Ribao"). O texto em mandarim se encontra disponível na internet, no sítio .

"`O BRIC se tornou o motor da economia mundial`

Entrevista com o Ministro das Relações Exteriores do Brasil,
Celso Amorim - por Wang Xiyi, Chen Hailing e Xiao Xian.

Desde a chegada ao poder do Presidente Lula, a posição e a influência do Brasil no cenário internacional têm tido uma expansão sem precedentes. Para entender a razão disso, não se pode desconhecer o mérito do "arquiteto chefe" da política externa brasileira, o Chanceler Celso Amorim.

Na esfera diplomática, Celso Amorim acumula várias realizações notáveis: em 2003, na Conferência de Cancún da OMC, ele negociou com os representantes dos países
desenvolvidos, em favor do ponto de vista e dos interesses dos países em desenvolvimento; utilizou as vantagens dos biocombustíveis para promover o diálogo e a cooperação com outros países e expandir a influência do Brasil; e, por fim, acolheu favoravelmente o conceito de BRIC, contribuindo para torná-lo um influente mecanismo de cooperação geopolítica. No cenário político internacional, Amorim é ativo e se move com
desenvoltura, fazendo com que mais países escutem a voz do Brasil.

Em 9 de abril de 2010, às vésperas da realização da Cúpula do BRIC, o Chanceler Amorim concedeu, no "Palácio de Cristal" [shuijing gong - como às vezes é chamado o Palácio Itamaraty em mandarim] uma entrevista exclusiva aos repórteres deste jornal, discutindo com franqueza a II Cúpula do BRIC e sua visão sobre as perspectivas para o relacionamento e a cooperação sino-brasileiro.

- A preparação da agenda do BRIC

Diário de Cantão: Como estão os trabalhos preparatórios para a II Cúpula do BRIC?

Amorim: Estão bem. Trata-se de um encontro muito importante, com uma série de reuniões prévias, envolvendo bancos centrais, a comunidade empresarial, acadêmicos. Houve, ainda, uma reunião de Ministros de Agricultura, já realizada.
Vocês talvez já tenham notado que, no Brasil, a Cúpula do BRIC é um tema que desperta muito interesse, e, na capital, por toda parte se pode perceber a atmosfera da Cúpula.

Eu acredito que a Cúpula vai expandir o poder de imaginação das pessoas. O BRIC se tornou o motor da economia mundial.
Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional, nos próximos seis anos o crescimento do BRIC responderá por 62% do crescimento global. O G-7 responderá por apenas 12%.

Diário de Cantão: Como Chanceler anfitrião, o que espera desta Cúpula?

Amorim: Este é a segunda vez em que se realiza uma Cúpula do BRIC, é um processo de consolidação da cooperação. Acredito que o encontro dos líderes dos países do BRIC tem um significado muito importante, porque eles podem definir a agenda futura.

Na área econômica, o BRIC se tornou um grupo de grande influência. Para dar um exemplo do grau de importância do grupo, os quatro países, reunidos, tem poder de veto no FMI. Em outras áreas, como mudança climática, o BRIC terá um poder de voz cada vez mais elevado.

Mas, a meu ver, há um outro assunto que aguarda discussão: o da segurança comercial. Acho que cada país ainda não considerou a fundo a situação de fato, talvez por se tratar
de uma questão sensível. Também espero que os líderes do BRIC possam discutir uma série de problemas do mundo atual.

Diário de Cantão: Haverá uma terceira Cúpula do BRIC no ano que vem? Se houver, qual país a sediará, e em que data?

Amorim: Espero que sim, mas, neste momento, não sei quando, exatamente. Caberá aos líderes do BRIC decidir. Uma vez que a primeira e a segunda cúpulas ocorreram na Rússia e no Brasil, é notável que a óbvio que a terceira deve ser num país asiático. Estamos esperando o convite (risos).

Diário de Cantão: Qual será o papel do BRIC na recuperação da economia mundial?

Amorim: No ano passado, as economias da China e da Índia preservaram seu crescimento. A economia brasileira, embora não tenha crescido, pelo menos não se retraiu. A previsão é de que o PIB brasileiro tenha crescimento de 5% ou 6% neste ano. Isso sem dúvida terá impacto relevante na economia mundial. Em certa medida, enquanto os países desenvolvidos se recuperam com dificuldade, o BRIC ajuda a economia mundial e sustenta o comércio global. Sem o BRIC, estaríamos em pior situação.

Tome o Brasil como exemplo. Nos últimos 8 anos, o valor total do intercâmbio comercial entre o Brasil e a China, a Índia e a Rússia se elevou de US$ 10 bilhões para US$ 50 bilhões, isto é, quintuplicou. No ano passado, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil. 6 ou 7 anos atrás, as exportações do Brasil para os EUA e a União Européia respondiam por 28% ou 30% do total. No momento presente, as exportações para os EUA tiveram uma redução relativa, atingindo 10% do nosso total, enquanto as exportações para a China, a Índia e outros países se elevaram, em termos relativos. Acredito que se trata de uma tendência que continuará avançando, assim como o BRIC.

Diário de Cantão: Tornou-se mais elevada, no cenário internacional, a voz dos países com mercados emergentes?

Amorim: É certo. Os países com mercados emergentes têm elevado sua voz, gradualmente. O G-20 já suplantou o G-7 ou o G-8 como plataforma para a condução do diálogo em matéria de assuntos econômicos internacionais.
Além do BRIC, México, Argentina e África do Sul e outros também participam das discussões com os países desenvolvidos, o que nos permite obter um bom equilíbrio. Isso é muito importante. Mas não podemos esquecer que esses países não representam o mundo inteiro.
Como quer que seja, decisões importantes devem ser tomadas em plataformas mais amplas, como a Assembléia Geral das Nações Unidas. Quero dizer, o BRIC é importante, mas no processo de intercâmbio e de comunicação ainda temos de manter um atitude
calma e modesta, sem levar em consideração unicamente os interesses de nosso próprio país.

`O mercado interno do Brasil é seu "escudo" de defesa contra a crise`

Diário de Cantão: Como foi a recuperação do Brasil em meio à crise financeira e econômica? Quais as políticas domésticas de maior sucesso?

Amorim: Acredito que três fatores foram de grande valia para o Brasil. Em primeiro lugar, há a decisão do Governo de promover políticas públicas que assegurem melhor distribuição de renda e redução das disparidades sociais. Essas políticas têm o condão de consolidar o mercado interno, que é o principal "escudo" de defesa do Brasil contra os efeitos da crise. Antes, muitas pessoas não dispunham de poder aquisitivo, mas, hoje, podem comprar aparelhos de televisão e outros bens, e isso mantém a economia do país.
O segundo fator foi que, antes da crise, o Brasil já havia diversificado suas relações comerciais, com a China, a Argentina, outros países da América do Sul. As exportações do Brasil se tornam crescentemente importantes até mesmo para países árabes e africanos. O comércio com os EUA e a União Européia se tornou menos importante, em termos relativos.
Claro, nossas exportações continuam, como antes, a ser direcionadas para todos esses países, mas a participação dos países em desenvolvimento atingiu mais ou menos 53%, 54%. Há 8 anos apenas, essa porcentagem era menor. Recentemente, as exportações vêm se expandindo com velocidade, sobretudo as exportações para os países em desenvolvimento. Esse é outro elemento importante no enfrentamento da crise.
O terceiro fator é a grande estabilidade do nosso sistema financeiro. A reforma do nosso sistema financeiro foi concluída anos atrás. Temos bancos estatais muito fortes, que
podem prover apoio fundamental aos pequenos bancos nos momentos em que o sistema bancário atravessa uma crise. Essas instituições estão em condições de apoiar de maneira consistente os pequenos bancos e conceder empréstimos à indústria, à agricultura e aos consumidores mais humildes.

Diário de Cantão: Há problemas por resolver?

Amorim: Claro que sim. O Rio de Janeiro sediará a Olimpíada de 2016. Temos muito a aprender com a Olimpíada de Pequim. Um dos nossos problemas é a necessidade de melhorar a infra-estrutura, especialmente no que se refere a energia, transporte e portos.
Além disso, o Brasil também enfrenta importantes desafios para o desenvolvimento dos biocombustíveis e a redução da pobreza.

Diário de Cantão: Como o Senhor avalia a situação econômica da China?

Amorim: É incrível o desenvolvimento econômico da China. Estou seguro de que a China continuará a ser um dos motores do crescimento econômico mundial, e o principal deles, dentro de alguns anos.

- Comentário dos jornalistas: conheça o "melhor Chanceler do mundo"

Devido a uma visita do Presidente do Chile, nossa entrevista exclusiva com o Ministro Celso Amorim sofreu um adiamento de última hora, o que nos deixou muito preocupados, achando que não teríamos sucesso...

Quando chegamos ao Ministério das Relações Exteriores, os Presidentes do Brasil e do Chile davam uma coletiva de imprensa. Em meio a vários altos funcionários, reconhecemos de longe o Ministro Amorim. Antes de encontrar o Ministro brasileiro pessoalmente, as fotos nos haviam transmitido a impressão de um senhor cordial e simples, que não mantém as pessoas a uma distância cerimoniosa.
Perguntamos a uma das assessoras de imprensa do Ministério das Relações Exteriores, Lilian, se seria necessário reduzir o tempo da entrevista, já que o Ministro estava muito
ocupado. A resposta de Lilian foi a seguinte: "De jeito nenhum. Podem conversar com o Chanceler livremente". No final, a entrevista, que seria de uma hora, durou uma hora e
meia. Durante o encontro, o Chanceler escutou atentamente as perguntas, respondendo-as com energia. Os verbos que mais empregou na entrevista foram "talk", "discuss" e "meet" [em inglês no texto] - todas com um mesmo sentido comum:
"comunicar".
"Comunicar" é a idéia-chave da forma como Amorim conduz a política externa brasileira. Ele a põe em prática todos os dias, pessoalmente. Comunica-se com líderes de vários países, comunica-se com brasileiros comuns, e comunica-se com jornalistas que, como nós, viemos da remota China. Ele se esforça para escutar o maior número possível de vozes, e também se esforça para fazer com o que o maior número possível de pessoas escutem a voz do Governo brasileiro.

Sobre a honra de receber da revista americana "Foreign Policy" o título de "melhor Chanceler do mundo", Amorim comentou com tranqüilidade: "Não sou um político, mas um diplomata profissional". De fato, "melhor Chanceler do mundo" talvez seja apenas uma opinião particular. Mas as características nele percebidas pelos jornalistas - franqueza, entusiasmo, sabedoria e lucidez - são a melhor demonstração do conceito de "diplomata profissional".

Friday, April 9, 2010

383) Brasil e Argentina fazem protecionismo contra a China

Brasil e Argentina se unem contra produtos chineses
O ESTADO DE S. PAULO: 08 Apr 2010

Decisão foi tomada durante reunião bilateral Brasil-Argentina, que foi realizada em Brasília.

Mesmo com suas divergências na área comercial, os governos brasileiro e argentino resolveram se unir para promover seus produtos na China e impedir uma invasão ainda maior dos chineses em seus mercados.

A preocupação, segundo o secretário de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria (Mdic), Welber Barral, é que o Brasil está perdendo participação de mercado na Argentina para produtos chineses e o mesmo está acontecendo com o vizinho no território nacional. Queremos ter uma agenda mais ofensiva em relação à China sobre desvio de comércio, afirmou Barral.

Os técnicos brasileiros e argentinos querem encontrar explicações para o avanço dos chineses em seus mercados e, se necessário, propor medidas para simplificar procedimentos no comércio exterior e facilitar o acesso a financiamentos. Segundo Barral, o Brasil pode estar perdendo mercado argentino por redução da competitividade dos produtos, questões logísticas (como barreiras na fronteira) ou mudança do padrão de consumo dos nossos vizinhos.

Papel e tecidos
O Brasil diminuiu participação nos segmentos de papel e tecidos e malhas. No caso do papel, a presença dos produtos brasileiros no mercado argentino caiu de 34% para 30%. Já a dos chineses passou de 4% para 10%. No segmento de tecidos e malhas, a situação é ainda mais preocupante. A participação brasileira despencou de 29% para 9%. Esse mercado foi capturado pelos chineses, cuja participação na Argentina passou de 56% para 78%

O mesmo problema está sendo sentido pelos argentinos. No setor de móveis, por exemplo, a presença deles no mercado brasileiro caiu de 7% para 1%, sendo que os chineses ganharam mercado, saindo de 25% para 40%.

Exportações
Barral destacou ainda que as duas economias estão empenhadas em aumentar suas vendas para os chineses. Para isso, farão missões e feiras de promoção conjuntas na China. A ideia é vender produtos mais elaborados - alimentos e calçados - para os chineses. As missões setoriais serão organizadas pela empresas de promoção Apex e Proargentina.

Licenças
Durante a reunião bilateral, os representantes dos governos tentam ainda resolver as arestas que vem prejudicando o comércio entre os dois países. O principal atrito ocorre com as chamadas licenças não-automáticas de importação, ou seja a necessidade de autorização prévia para importar. Os argentinos começaram primeiro a exigir esse tipo de licença de vários produtos exportados pelo Brasil. No ano passado, o governo brasileiro passou a fazer exigências semelhantes.

Barral fez questão de dizer que não há problemas setoriais, mas sim pontuais em algumas empresas. Tratamos todos os casos e novos estão sendo apresentados. O compromisso é tentar resolver o mais rápido possível. A melhor solução seria eliminar as licenças, afirmou Barral, lembrando que no mês passado o procedimento deixou de ser exigido para a entrada de pneus.

Thursday, March 18, 2010

352) China e Brasil: viloes comerciais, na visao dos EUA

Para EUA, Brasil e China enterram negociação
Assis Moreira
Valor Econômico, 18.03.2010

Os Estados Unidos estão demonizando o Brasil e a China, acusando os dois grandes emergentes de causarem dificuldades para o presidente Barack Obama na área comercial, revelam fontes com acesso direto aos negociadores com poder de decisão nos EUA. Um amontoado de queixas em relação ao Brasil e China foi o que mais ouviram autoridades que recentemente visitaram Washington. Na ocasião, a maior potência do planeta teria enviado os piores sinais possíveis para a área comercial.

No caso do Brasil, a administração Obama alega que a retaliação de US$ 830 milhões (incluindo patentes, remédios, filmes etc.) complica politicamente sua atuação no Congresso e, ao mesmo tempo, enterraria de vez tentativas da Casa Branca de retomar a negociação global em Genebra.

Na semana que vem, os 153 países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) voltarão a examinar o que fazer com a combalida Rodada Doha de liberalização comercial, já que apenas um país, os EUA, estão bloqueando qualquer avanço. Houve uma tentativa de se marcar uma reunião ministerial, de maior peso, mas Washington a bloqueou. E a reunião de altos funcionários na semana que vem foi encurtada.

A avaliação na cena multilateral é que a retaliação brasileira está servindo de novo pretexto para os EUA desviarem a atenção da incapacidade do governo Obama de negociar, já que não tem condições, atualmente, de assinar nem um acordo comercial com o Panamá. Pelo clima em Washington, o sentimento de observadores é de que dificilmente a administração Obama terá condições de apresentar uma proposta de compensação ao Brasil nos próximos dias para evitar a sanção contra bens americanos.

Em Genebra, os americanos não tocam no assunto do algodão. A impressão é que os EUA querem não apenas que o Brasil não retalie, como peça desculpas por estar incomodando, notam certos observadores. Não apenas o Congresso está entrincheirado no apoio protecionista a seus agricultores, como a equipe de Obama mostraria uma inação, ou até uma incompetência, para tratar com os parlamentares que não querem nem ouvir falar de liberalização ou compromissos.

Uma negociação - na OMC ou bilateralmente - demanda, de todo modo, a reforma da lei agrícola americana. Só que o Congresso não quer mudar os programas para o algodão, os principais beneficiários de subsídios e com lobby fortíssimo entre os parlamentares. Eles não querem alterar nada para viabilizar uma negociação global, e não é a retaliação do Brasil que vai mudar essa situação, diz fonte que conhece bem a posição americana.

Há dois modos de agir quando se perde uma disputa na OMC. A União Europeia foi condenada na briga do açúcar com o Brasil e usou a decisão para facilitar a reforma de seu regime de subsídios, considerado ilegal. Já os EUA têm posição contrária e certos negociadores falam de intimidação bilateral.

Em relação à China, os torpedos também aumentaram. Com déficits público e comercial enormes, os EUA não cessam de acusar Pequim de manipular a taxa de câmbio e manter a moeda desvalorizada em relação ao dólar, o que torna as exportações chinesas particularmente competitivas, ao mesmo tempo que protege o mercado chinês contra produtos americanos.

Esta semana, 130 parlamentares republicanos e democratas enviaram uma carta ao Departamento do Tesouro, exigindo que o governo Obama imponha sobretaxa aos produtos originários da China. Longe de se intimidar, os chineses dizem que não vão alterar sua política cambial. E, por outro lado, cobraram dos EUA que sejam mais cuidadosos na administração econômica, porque estão preocupados com o desempenho da economia americana.

A China e o Japão, os dois maiores credores dos EUA, voltaram a diminuir seus estoques de títulos do Tesouro americano, em janeiro, quando a demanda estrangeira caiu para US$ 19 bilhões, comparada aos US$ 63 bilhões em dezembro. O estoque chinês ficou em US$ 889 bilhões e o do Japão, em US$ 765,4 bilhões.