Tuesday, December 22, 2009

125) China e OMC: duas noticias negativas em comercio

OMC investigará China por preços de aço
Agências internacionais, 22.12.2009

A China recebeu ontem duas más notícias da Organização Mundial do Comércio (OMC). A primeira é que os juízes confirmaram uma decisão que classifica como ilegais as restrições impostas por Pequim à importação de CDs, DVDs e livros produzidos nos EUA. O segundo revés foi que a OMC aceitou um pedido de investigação sobre supostas práticas de manipulação de preços de matéria-prima, como aço e alumínio. O pedido foi feito por EUA, União Europeia e México.

Em agosto, a OMC já havia chegado a um veredito contrário à China no caso da produção cultural americana. A razão da disputa é uma medida chinesa que obriga gravadores, produtoras de cinema e editoras americanas a, de algum forma, associarem-se a estatais chinesas. Com a decisão de ontem, a China terá o próximo ano para adaptar sua política às leis internacionais de comércio. Caso contrário, os EUA poderão adotar sanções a produtos chineses.

Na outra decisão de ontem, a OMC concordou em abrir uma investigação sobre as tarifas que a China passou a impor às exportações de nove commodities, entre elas aço, alumínio, magnésio e bauxita. Os EUA, a UE e o México dizem que a tarifa desestimula as exportações chineses de itens que são fundamentais para as fábricas americanas, europeias e mexicanas. E, ao mesmo tempo, aumenta a oferta para as fábricas na China.

A UE já disse que 500 mil empregos na Europa são potencialmente ameaçados pelas tarifas chinesas. O novo painel será aberto em 45 dias. A China reagiu dizendo que os impostos têm o objetivo de deter o excesso de produção e as emissões de gases-estufa.

Monday, December 21, 2009

124) Shanghai Express: um romance de Zhang Henshui (1935)

Tomei conhecimento, ao penetrar na leitura do capítulo 6, "A cultura chinesa é moderna?", do livro de Rana Mitter, Modern China: A Very Short Introduction, que o nome Shanghai Express já tinha sido empregado pelo escritor Zhang Henshui (1895-1967), um dos autores de maior sucesso na primeira metade do século 20, quando estavam de moda os romances de evasão, tratando da modernidade e dos desafios colocados à China em sua transição de um império quase imutável a uma República turbulenta.
Os personagens desse romance de Henshui são baseados na grande mutação que então sofria a China dos anos vinte: a "nova mulher", que prefere as vestimentas ocidentais, o homem de negócios e o professor. O cenário é um trem, certamente o do título, que simbolizava a modernidade, a velocidade e o progresso.
Antes, o mesmo escritor havia publicado o romance O Destino em Lágrimas e Risadas, uma longa história picaresca cujo protagonista tem de escolher entre duas moças, uma cantora tradicional e a filha de um burocrata ocidentalizado, que pretende ser chamada ao modo inglês, de "Miss Helen".
Segundo Rana Mitter, "o livro é cheio de fugas emocionantes, artes marciais e sentimentalismo desenfreado, mas o tema, a escolha entre a tradição e a modernidade, é claríssimo". (p. 131-132, da edição italiano desse livro, La Cina Moderna; Milano: Mondadori, 2008).

Sunday, December 20, 2009

123) No espelho da China - Antonio Barros de Castro

No espelho da China
Antonio Barros de Castro
Digesto Econômico, março-abril 2008

"Strategic thinking helps us take positions in a world that is confusing and uncertain. … speculative judgements … are the essence of strategic thinking, and they can be the starting points for taking a position". (1)

Antonio Barros de Castro
Assessor da Presidência do BNDES e Professor Emérito da UFRJ.

Preliminar sobre o atual deslocamento do centro de gravidade do crescimento mundial.
Poucos questionam hoje a idéia de que o centro de gravidade do crescimento econômico no mundo vem se deslocando para a Ásia, e mais concretamente para a China. Esta última economia, com o PIB expresso em PPP, já equivale a quase 50% do PIB norte americano e o seu crescimento, no período 2002 a 2006, explicou 29% do crescimento da economia mundial. Aliás, se a China e os Estados Unidos mantiverem o crescimento dos últimos 10 anos – uma hipótese otimista, em ambos os casos –, os dois países passariam a ter tamanho semelhante no curto intervalo de 10 anos.

Não é a primeira vez que o centro de gravidade do crescimento da economia mundial se desloca. É bastante conhecido o fato de que nas primeiras décadas do século 20 completou-se o deslocamento do centro do capitalismo da Inglaterra para os Estados Unidos – e os historiadores acrescentam que entre os séculos XVII e XVIII uma mudança desta natureza transferiu da Holanda para a Inglaterra a liderança do nascente capitalismo.

De acordo com Raul Prebish, ao negar, na prática, a clássica divisão internacional do trabalho, entre um centro provedor de manufaturas e a periferia, provedora de alimentos e matérias primas, a ascensão da economia norte-americana mudou radicalmente as oportunidades da América Latina - e muito particularmente de seu país, a Argentina. Este marcante episódio chama a atenção para um dos pontos tratados neste trabalho: deslocamentos deste tipo, raros na história, têm enormes implicações. A Argentina, por exemplo - que como a Austrália e a Nova Zelândia havia sido beneficiada pela divisão internacional do trabalho centrada na Inglaterra – frente ao declínio relativo inglês, teve que buscar outras soluções para voltar a crescer. Por outro lado, a ascensão dos Estados Unidos beneficiou inequivocamente o Canadá - mas não parece em absoluto ter aumentado as chances da Espanha e de Portugal.

Alguns países estão tendo, nos mais recentes anos, as suas oportunidades mais que multiplicadas, revolucionadas, pela ascensão chinesa. Entre as economias mais claramente alavancadas encontram-se algumas integrantes do continente africano. Em outros casos, contudo, a China pode ter trazido mais problemas que oportunidades, sendo de se destacar, a este respeito, o ocorrido com algumas economias da América Central e, possivelmente, com o México.

No próprio continente europeu, as conseqüências da ascensão chinesa parecem ser enormes e, mais uma vez, diferenciadas. Assim, por exemplo, a economia italiana (e a indústria muito particularmente) parece haver perdido posições e rumo, enquanto a Espanha (que poderia, em princípio, ter um destino semelhante ao da Itália), mediante combinação de políticas públicas e criatividade empresarial, parece estar desenvolvendo, paulatinamente, novas e amplas oportunidades de negócios. A sumária referência a estas duas economias sugere dois ensinamentos. Primeiramente, o resultado das translações de que estamos falando não está predeterminado, podendo mostrar- se de uma importância decisiva as escolhas feitas (aí incluída a inanição e a paralisia) pelas políticas públicas, emassociação com as empresas. Além disto, fica também sugerido que o possível proveito tirado por uma economia de uma mudança sistêmica do tipo aqui focalizado pode não surgir direta e imediatamente. Tende, na realidade, a depender da sua capacidade de desenvolver novas oportunidades – inclusive em outros espaços, estes, sim, é de presumir-se, diretamente afetados pelo deslocamento do centro de gravidade do crescimento mundial. Concretamente: a Espanha está explorando oportunidades de investimento em infra-estrutura na América Latina – que vêm sendo nitidamente ampliadas por pressões de demanda procedentes, direta ou indiretamente, da China.

A redistribuição das oportunidades bem como dos entraves ao crescimento depende, numa primeira instância, das características dominantes no centro ascendente – sobretudo na medida em que elas se revelem originais ou mesmo inéditas. No que segue apontaremos sumariamente algumas das características da economia chinesa, destinadas a balizar decisões mundo afora. A ênfase no peculiar não provém apenas do excepcionalismo chinês. Decorre também, decisivamente, de que estamos aqui beirando a história, campo em que as diferenças contam decisivamente. Afinal, como já foi elegantemente dito, "a história constitui uma amostra de tamanho um"(2).

1) Com uma Formação Bruta de Capital superior a 40% do PIB, a economia chinesa se tornou um sorvedouro dos materiais e insumos que corporificam os investimentos. Isto contribuiu decisivamente para a explosão da demanda de máquinas, metais e energia, estando na base dos desequilíbrios verificados nos respectivos mercados. Não apresentaremos aqui cifras – amplamente disponíveis – sobre o deslocamento do patamar de preços das commodities daí derivado. Cabe apenas lembrar que esta é uma mudança crítica, que na realidade quebra uma tendência (ao declínio dos preços das commodities) datado, pelo menos, do pós-guerra da Coréia. Também não é preciso insistir em que esta reviravolta se encontra na base do rápido crescimento de numerosas economias, que em última análise passaram a ser membros do mundo sinocêntrico (3). A esse propósito cabe acrescentar que, desde que fartamente dotada de recursos naturais inexplorados, quanto menos desenvolvida – ou mais destruída – se encontrar uma economia, às vésperas de sua inserção no mercado sino-cêntrico, mais rápido crescerá: seja por óbvios efeitos base (parte-se de muito pouco); seja porque não há que promover a reconversão/adaptação de importantes atividades anteriores. O caso de Angola, economia que cresce presentemente a 20% ao ano, tragicamente ilustra o que acaba de ser dito. Em suma, para o crescimento destas economias, o fato bruto de dispor de matérias primas não só é mais importante do que a constituição de sólidos fundamentos, como (numa inusitada inversão de ordem) permite que eles sejam rapidamente gerados, a partir do boom de commodities.

Com uma Formação Bruta de Capital superior a 40% do PIB, a economia chinesa se tornou um sorvedouro dos materiais e insumos (...)

2) Em segundo lugar parece-nos adequado chamar a atenção para o seguinte fato: o atual candidato a uma posição central tem, entre suas características maiores, a de transformar-se a uma velocidade historicamente desconhecida – o que não deve surpreender, tido em conta o ritmo avassalador a que nele avança a Formação Bruta de Capital. A intensidade das mudanças a que estamos nos referindo permitiu que a China rapidamente passasse da exportação de pequenas manufaturas de baixo valor e reduzido conteúdo tecnológico, à exportadora de eletrônicos (inicialmente apenas montados na China), e a um amplo esforço recente de substituição de importações (4), acompanhado de adensamento das cadeias de valor. Aliás, no estágio já alcançado de desenvolvimento, as próprias autoridades chinesas admitem, ao que parece, que a economia deixou de ser competitiva – frente ao Vietnã e a Bengladesh - em determinadas manufaturas de baixo valor unitário. Por outro lado, e saltando para o pólo oposto, países mais sofisticados industrialmente do que a China têm que ter em conta que suas vantagens construídas podem durar muito pouco. Como ilustração da rapidez das mudanças, e das dificuldades que daí podem derivar, faremos uma breve referência ao setor máquinas e equipamentos.

Em diversos segmentos, os equipamentos chineses do tipo standard que começavam a chegar ao Brasil por volta de 2004/5 apresentavam preços imbatíveis. Por não oferecer assistência técnica pós-venda para os comparadores, no entanto, os equipamentos ficavam muitas vezes em desvantagem competitiva. Mas a resposta chinesa em alguns casos mostrou-se rápida e, possivelmente, contundente, mediante a colocação no mercado de produtos supostamente concebidos como "descartáveis" – o que praticamente elimina a questão da assistência técnica!

A segunda característica significa que as empresas e economias que buscam reposicionar-se, tendo em vista a erupção da China, devem entender de partida, que as oportunidades e ameaças serão freqüentemente redefinidas, havendo neste sentido que atirar sobre alvos móveis. Alternativamente, podem, claro, tentar desenvolver especializações que não sejam facilmente colocadas em cheque pelo avanço chinês. Voltaremos a este tema, mas fica desde já registrado que tanto a dinâmica empresarial, quanto a natureza das políticas públicas de apoio às empresas até agora vigentes, devem ser seriamente repensadas, em decorrência da mutação em curso no meio ambiente econômico.

3) Certas soluções que vêem sendo desenvolvidas na China – assim como certas soluções norte-americanas no passado – parecem fadadas a ter imensas repercussões. Uma ilustração parece aqui cabível. Como é bem sabido, o modelo T da Ford e o salário de U$ 5,00 ao dia a ele associado, encontram-se na base da revolução do consumo de massas, ocorrida pioneiramente nos Estados Unidos, e difundida no pós II Guerra Mundial para a Europa e em outras regiões. Pois bem, existe um fenômeno análogo na atual experiência chinesa. Trata-se de uma nova e dramática onda de barateamento dos bens de consumo eletroeletrônicos, cujo caso emblemático parece ser a evolução verificada, desde o VCR (videocassette recorder) até o atual DVD.

O produto tinha, ao começar a ser montado na China, preços que o mantinham fora do alcance dos trabalhadores chineses. No que possivelmente constitui a primeira grande contribuição moderna chinesa, em matéria de inovação redutora de custos, o preço do produto foi rapidamente reduzido (até cerca de US$ 30 por unidade). Conseqüentemente, entre 1994 e 1999, as marcas chinesas saltaram de 34% para 93% do mercado local (5). Atenção: os baixos salários chineses contribuíram para a redução inicial dos custos e preços – mas não explicam a drástica redução verificada nesta notável experiência.

Existe aqui, sem dúvida, uma interessante analogia com o caso Ford T – sendo que no caso chinês foi o poder aquisitivo dos salários que subiu fortemente, via queda de preços do produto final.

Existe aqui, sem dúvida, uma interessante analogia com o caso Ford T – sendo que no caso chinês foi o poder aquisitivo dos salários que subiu fortemente, via queda de preços do produto final. Lembremo-nos, a propósito, que a solução Ford influenciou fortemente outras empresas e indústrias. Algo semelhante reproduziu- se na China, através da multiplicação dos produtos (eletro-eletrônicos de consumo, equipamentos de transporte tipo duas rodas e certas máquinas) que vêm sendo levados a mercado a preços por vezes referidos como "chineses". Como não poderia deixar de ser, os impactos daí derivados (vantagens, perda de espaço de produtos tradicionais etc) são múltiplos. Exemplificando: motocicletas chinesas, vendidas por um quarto dos preços até recentemente praticados, difundem-se hoje, aceleradamente, no sudeste asiático, revolucionando o transporte naquelas regiões (6).

Repercussões da característica que estamos comentando certamente já estão presentes na América Latina - e são parte integrante da revolução do consumo de massas presentemente em curso no Brasil. Não faltam aliás evidências de que a mutação em foco está se alastrando – inclusive pela marcante presença da Índia (7) no grupo de países que está promovendo a drástica redução de custos e preços de certos tipos de manufaturas.

É difícil exagerar a importância deste último fenômeno, originariamente evidenciada no moderno padrão chinês de crescimento. Curiosamente, se no caso norteamericano a difusão entre os trabalhadores dos modernos gadgets de consumo surge associada à notória riqueza do país, a réplica chinesa significa, inicialmente pelo menos, um grande esforço para difundir um kit moderno de consumo, numa população cujos salários ainda se encontravam entre os mais baixos do mundo. A versão chinesa da revolução do consumo de massas é, portanto, profundamente diversa. Justamente por isso, no entanto, pode atingir o consumo dos pobres do mundo, vindo a revelar-se ainda mais influente que a versão norte-americana da revolução do consumo de massas.

O anterior também significa, que se até recentemente a voracidade chinesa no tocante ao consumo de metais e energéticos tinha em boa medida por base o brutal ritmo chinês de investimento, presentemente, uma crescente contribuição provém dos ex-pobres, que passam a também consumir, exemplificando, eletricidade, alumínio e cobre. Advirta-se a propósito, que ainda quando a versão chinesa (ou mesmo, possivelmente, indiana) das modernas manufaturas seja, por unidade, muito menos consumidora de energia e metais do que os produtos típicos norte-americanos (e ainda quando o consumo de metais e energia por unidade de PIB seja, também, significativamente menor), a pressão sobre os recursos naturais da terra tende a aumentar, dada a espetacular expansão do contingente de consumidores "modernos".

Dado tudo o que precede, não deve surpreender o fato de que esteja ocorrendo no mundo, surda, e, em certos casos, inconscientemente (em particular entre as economias emergentes), algo a que poderíamos nos referir como uma corrida de reposicionamentos. Esta corrida, que teve início nas economias vizinhas da China, tem necessariamente por referência as tendências pesadas derivadas da ascensão chinesa – bem como as respostas a ela dadas por outras economias (8). Seus resultados, seguramente, não amadurecem rapidamente, mas delas derivam conseqüências que podem desde já ser pensadas, debatidas e transformadas em insumos das estratégias de empresas e Estados.

Como reação às novas tendências, tendem a multiplicar- se as demandas por inovações e soluções de toda ordem. O estresse daí derivado, por sua vez, influencia as relações Estado-mercado. Afinal, deve haver mais espaço para políticas públicas, num mundo submetido a um estresse de soluções – o que parece ter sido demonstrado durante as guerras mundiais do século passado. Além disto, a convergência tecnológica presentemente existente na fronteira das técnicas indica que as soluções a serem buscadas requerem mais cooperação do que no passado, entre as empresas, entre estas e os poderes públicos, bem como com os Institutos de Pesquisa e as Universidades. A valorização das políticas industriais e tecnológicas centradas na inovação surge, pois, como um corolário de tudo isto.

Políticas públicas e estratégias frente a uma forte e duradoura mudança das ameaças e oportunidades.
Faremos no que segue alguns comentários a propósito das políticas públicas e estratégias em princípio cabíveis, frente a uma ampla redistribuição das oportunidades e ameaças, em decorrência do deslocamento do centro de gravidade do crescimento mundial.

O texto se limita à família das economias complexas, mas não maduras. A primeira restrição elimina economias, que antes da emergência da China já haviam aceito uma forte redução do grau de diversificação/complexidade. Quanto à não maturidade, referimo-nos ao fato de que as economias em questão não se encontram ainda navegando no que já foi referido como a interminável fronteira do conhecimento.

Isto não significa, contudo, que elas não disponham de competências específicas que lhe permitam, em determinados campos, realizar incursões para além do estado nas economias maduras.

Para facilitar a comunicação recorreremos a um esquema no qual estão presentes três tipos de políticas públicas: a "proteção" a atividades ameaçadas; o "apoio ao reposicionamento", visando uma maior sintonia com as alterações verificadas no meio ambiente econômico; e a "busca do futuro", ou seja, o apoio à construção/exploração de oportunidades até o presente apenas vislumbradas.

É importante frisar que as mesmas políticas estão presentes nas três estratégias esboçadas, residindo a diferença nos graus: "dominante", com uma "presença significativa", ou meramente "residual".

Finalmente, e quanto às estratégias propriamente ditas (que compreendem, em diferentes graus, os três tipos de políticas públicas) teremos em conta três espécies: o Entrincheiramento (Y); a Estratégia Adaptativa (B), e a Estratégia Transformadora (A).

No que segue comentaremos, sumariamente, cada uma das estratégias.

A estratégia Y, de entrincheiramento, busca proteger a industria como ela é, frente a mudanças recentemente surgidas, que a prejudiquem ou ameacem. Assinale-se, a esse respeito, um contraste entre a proteção do tipo que acaba de ser referido, e aquela concedida quando a indústria ainda está sendo implantada. Neste último caso as empresas (não raro principiantes) tratam de adquirir e dominar capacitações de que raramente o país dispõe – mas que já são tradicionais em outras economias. Elas se movem por interesses próprios, mas têm, também, a missão histórica de incorporar novas competências ao acervo de que o país dispõe. No caso em foco, porém, a proteção (demandada, possivelmente, pelas próprias empresas), tenta, quando muito, preservar competências, que além de amplamente dominadas, podem já estar se tornando arcaicas.

Mas há ainda alguns sérios riscos. Por exemplo, os proprietários dos ativos podem (justificadamente, talvez, havendo a este respeito grande assimetria de informações) considerar a sua posição já seriamente ameaçada, ou mesmo definitivamente perdida. Em tais casos, a proteção por eles pleiteada trará alívio apenas momentâneo, o patrimônio particular dos donos terá sido beneficiado - e os órgãos públicos terão funcionado como balcão de atendimento a reclamos. Além disso, não é demais acrescentar, nos próprios segmentos ameaçados, empresas particularmente criativas já estarão possivelmente desenvolvendo soluções inovadoras – que correm o risco de serem desestimuladas pela proteção oferecida ao "entrincheiramento".

A proteção pode no entanto se revelar proveitosa – para a empresa e para o país – desde que combinada com efetivas mudanças, que tragam consigo o reposicionamento de empresas. Mas isto requer que ao invés de se proteger o passado, assumam-se firmes compromissos de mudança: as empresas, bem como as políticas públicas, deverão apoiar ativamente o reposicionamento. Nestes casos, porém, já estaríamos ingressando na próxima estratégia – em que se privilegiam saídas, pelo menos, adaptativas.

Convém advertir que a proteção (ou medidas ad hoc tomadas nesta direção), pode surgir como o tipo de resposta a que, espontaneamente ou a curto prazo, se tende.

Primeiramente, porque a profundidade das mudanças que vêm pela frente não terá sido percebida – sendo as dificuldades atribuídas a circunstâncias passageiras ou a erros de política. Confirma esta predisposição o fato de que o sistema de representação das atividades tradicionais encontra-se já montado, e não costuma ser difícil mobilizar trabalhadores e autoridades locais para a defesa de posições ameaçadas. Por contraste, respostas criativas ao novo quadro requerem políticas públicas que, não raro, ainda têm de ser concebidas e aprovadas exigindo, possivelmente, a revisão de normas e costumes, e o aprendizado de novas práticas.

A emergência da China e as transformações por ela induzidas, porém, caracterizam uma autêntica ruptura da normalidade e o surgimento de novas tendências.

O anterior não significa, seguramente, que a defesa jamais tenha mérito. Mas deve constituir, rigorosamente, a exceção. Aliás, como mostra o quadro I, em caráter residual, ela está presente nas duas outras estratégias. Mas a proteção surge, nas outras estratégias, acompanhada de outras iniciativas, que por contraste com o entrincheiramento, buscam combinar defesa com avanço. A bem dizer, nelas a proteção não significa recusa a entrar no (novo) jogo.Recorde-se, a propósito, que nos tempos heróicos da industrialização a proteção era concedida para que se pudesse, justamente, entrar no jogo!

A proteção de posições ameaçadas, enfim, gera benefícios imediatos – sendo por isto mesmo politicamente atraente. O entrincheiramento como solução maior, no entanto, frente a mudanças de grande magnitude, e vista a questão do ponto de vista do País, traz em si um grave erro de diagnóstico. Não é uma resposta à altura do desafio e, sobretudo, não gera futuro. A bem dizer, a proposta nem deveria ser referida como estratégia. Afinal, um comportamento adequadamente referido como estratégico deve possuir visão de futuro, para o que é indispensável ter em conta a conduta, os objetivos e os planos de ação dos atores que estão entrando em cena.

Duas considerações devem ser feitas, antes de se focalizar a segunda e a terceira estratégias.
Primeiramente, a agenda das políticas públicas está se movendo, em direção a posturas pró-ativas, num grau impensável nas últimas décadas do século XX. Não caberia tentar sequer explicar este importantíssimo deslocamento – que pode certamente ser abordado de diferentes pontos de vista. Cabe apenas registrá-lo e, na perspectiva deste trabalho, sugerir que entre as suas razões de ser figure, destacadamente, o retorno de questões relativas à alocação de recursos – ou genericamente, de oferta – praticamente banidas da agenda de políticas públicas (especialmente na América Latina) nas últimas décadas do século XX (9).

É claro que esta importante mudança foi reforçada pelo prestígio das experiências asiáticas, em que a próatividade das políticas constitui uma característica maior. Presentemente, a insegurança energética levou os Estados Unidos a um ostensivo intervencionismo no campo energético. Não é menos evidente que os espaços de atuação das políticas públicas pró-ativas estão também sendo ampliados e reforçados pela tomada de consciência dos problemas ecológicos. Através dela uma lente de aumento foi dramaticamente colocada sobre certos limites físicos do mundo econômico, fazendo com que questões de oferta deixem de ser tratadas (ou, melhor dito, ignoradas) de acordo com abordagem econômica típica do final do século passado. Por fim, o próprio deslocamento do centro de gravidade do crescimento para a China, ao atrair e/ou empurrar as economias em várias direções – desejados, ou não pelas respectivas sociedades e governos – vem dando a sua contribuição para a restauração das questões alocativas como uma temática (também) de governo (10).

NOTAS:
(1) Strategy`s strategist: An interview with Richard Rumelt. Mckinsey Quarterly 2007/Number 4
(2) Pant, P.N., e Starbuck, W. H. "Review of Forecasting and Research Methods", Journal of Management, junho de 1990, citado em Mintzberg, Henry, The Rise and fall of Strategic Planning, The Free Press, 1994.
(3) Castro, Antonio Barros, "From semi-stagnation to growth in a sino-centric market", Revista de Economia Política, janeiro-março de 2008
(4) Cui, Li & Hussain, Syed, Is China changing its stripes? The shifting structure of China’s External Trade and its Implications. Fundo Monetario Internacional, abril de 2007.
(5) Feng, Lu e Ling, Mu, Learning by Innovating – Lessons from the Development of the Chinese Digital Video Player, citado em Zonenschein, Claudia Nessi, O Caso Chinês na Perspectiva do "Catch-Up" e das Instituições Substitutas. Tese de Doutorado, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2006
(6) Fuller, Thomas, Produtos Baratos da China Facilitam a Vida de Vizinhos, O Estado de São Paulo, 30 de dezembro de 2007.
(7) Prahalad, C. K., A Riqueza na Base da Pirâmide, Bookman, 2006.
(8) Tais tendências foram sumariamente apontadas em "From semi-stagnation to growth in a sino-centric market", ob cit, e estão sendo tentativamente especificadas num trabalho em coautoria com Francisco Eduardo Pires de Souza.
(9) Em seu último livro, Dani Rodrik afirma, na introdução e peremptoriamente: "A marca do desenvolvimento é a mudança estrutural – o processo pelo qual se retira recursos das atividades tradicionais, de baixa produtividade, para atividades modernas, de alta produtividade.Vide One Economics Many Recipes. Princeton University Press, 2007, p. 7.
(10) Sobre o tema do fortalecimento das políticas pró-ativas nos Estados Unidos, veja-se o estimulante artigo State Activism in an Age of Globalization: Bringing Development Strategy Back in, de Linda Weiss, apresentado no seminário da Ford Foundation sobre The role of the State in a Global Era, São Paulo, novembro de 2007.

122) A China está próxima - Digesto Econômico

A China cada vez mais prÓxima
Renato Pompeu
Digesto Econômico, março-abril 2008

Na economia, a China está mais perto do Ocidente; politicamente, ainda está presa ao estatismo.

Está para fazer trinta anos que, em dezembro de 1978, dois anos depois da morte de Mao Zedong, à qual se seguiram a condenação da Gangue dos Quatro, que comandara a malfadada, violenta e ineficaz Revolução Cultural, e um expurgo de "desviacionistas de esquerda" do partido e do Estado, a Terceira Reunião Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China, sob a então nova liderança de Deng Xiaoping, decretou o fim do maoísmo como bandeira política e econômica, e o manteve apenas como bandeira ideológica do regime chinês, segundo artigo do pesquisador americano Gregory Albo publicado na revista Socialist Project.

Foi então iniciado um esboço muito precário de abertura política, com a condenação da "luta de classes em escala de massa", mas principalmente foi introduzido o "trabalho do partido pela modernização socialista", ou seja, a combinação do "ajuste pelo plano" com o "ajuste pelo mercado". As empresas estatais e as comunas agrícolas adotaram práticas de mercado, como a demissão por falta de rentabilidade e o estabelecimento de preços segundo a fórmula custos mais lucro.

A partir de 1979, foram criadas zonas econômicas especiais, em que passaram a vigorar práticas plenamente capitalistas, com empresas privadas e capitais estrangeiros, que aproveitaram os baixos salários vigentes na China, para se desenvolverem rapidamente. Essas zonas eram situadas perto de Hong Kong e Taiwan, para atrair mais facilmente seus capitais. Tudo isso deveria ocorrer sem maior liberalização política e sempre sob o comando do Partido Comunista. As fórmulas de liberalização econômica e autoritarismo político se mantêm até hoje, com um crescimento econômico de continuidade ininterrupta, em proporção sem paralelo nos países plenamente capitalistas, não se sabendo se esse caráter contínuo se deve exclusivamente à extrema liberalização econômica nos setores industrial, comercial e de serviços, inclusive nas empresas estatais (que concorrem entre si), liberalização que permitiu um dinamismo excepcional à economia chinesa durante décadas, ou se se deve em alguma parte, como argumenta a própria liderança chinesa, ao controle exercido pelo domínio do Estado nos setores energético e, principalmente, bancário – as crises de energia não foram totalmente evitadas, mas as crises financeiras, até agora, sim.

Livro de Carlos Tavares de Oliveira conta o início da civilização chinesa até as relações comerciais com o Brasil.

É isso que a liderança chinesa chama de "socialismo de mercado", a rigor só diferente, como dizem muitos especialistas, do capitalismo com empresas estatais de grande porte vigente na Grã-Bretanha entre a Segunda Guerra Mundial e o governo Thatcher, pela extrema precariedade da situação dos trabalhadores na China.

O grande problema é que há uma grande contradição entre a liberalização econômica e o autoritarismo político. O fato é que, economicamente, a China está cada vez mais próxima do Ocidente – politicamente ainda está presa ao seu milenar estatismo, que é muito anterior à tomada do poder pelos comunistas. Se, porém, como diz a própria doutrina oficial na China, o marxismo, os fatores econômicos sempre são mais decisivos do que os fatores políticos, não é demais esperar que, nas próximas décadas, a liberalização política torne a China ainda mais próxima dos países ocidentais. Afinal, desde a liberalização econômica de 1978, houve um forte movimento pela democracia, só esmagado pelo massacre da Praça da Paz Celestial em 1989 – e não é segredo que as novas gerações de chineses estão insatisfeitas com as condições políticas atuais.

Como se aproximar dos chineses
De todo modo, autoridades e empresários da China estão ansiosos para entrar em contato com seus pares de todos os outros países do mundo. Afinal, segundo Carlos Tavares de Oliveira, assessor da Confederação Nacional do Comércio, que lida com o comércio exterior há mais de 60 anos e desde 1971 vem chamando a atenção das autoridades e empresários do Brasil para a importância de relacionar-se com a China, o antigo Império do Meio, somado a Hong Kong e Macau, já está superando os Estados Unidos como primeiro país no comércio internacional, que no seu caso supera 3 trilhões de dólares anuais. Oliveira, ou Carlos Tavares, como prefere ser chamado, com suas décadas de experiência, dá dois conselhos importantes a quem quiser fazer negócios com empresas chinesas.

O primeiro conselho é de que o caminho mais frutífero para a lida com negociantes chineses, como já descobriram mais de 400 empresas multinacionais dos Estados Unidos, Japão e União Européia, é a associação com empresas da China, sejam estatais, sejam privadas. Os chineses se sentem mais seguros nesse tipo de empreendimento, e a associação, mesmo com estatais, foi adotada em setores estratégicos, como a indústria automobilística, o campo do petróleo. A principal empresa privada brasileira, até agora, a ter feito associação com uma empresa da China, no caso estatal, foi a Embraer.

O segundo conselho de Carlos Tavares é "não forçar a barra", nunca pressionar, nunca insistir, não esperar resolver as coisas logo no primeiro encontro, ou no segundo ou no terceiro – deve-se respeitar o tempo dos chineses, suas preocupações. Devem ser realizadas numerosas reuniões, no café da manhã, no almoço, no jantar, alternando-se a China e o Brasil como sede das reuniões, até que os chineses se julguem preparados para dar a resposta final.

Segundo Carlos Tavares, os negociadores chineses gostam de receber presentes, como a camisa da Seleção Brasileira. Não se deve de maneira nenhuma conversar sobre política, ou sobre religião, que são assuntos tabus na China. Em contrapartida, os chineses gostam de conversar sobre futebol, esportes em geral, sobre teatro, turismo. Gostam de ser convidados para visitar o Brasil.

Atenção especial deve ser dada ao comportamento nas refeições na China. Um jantar de negócios neste país consta de oito pratos seguidos, e não se deve comer muito dos primeiros pratos que forem oferecidos, pois senão o estrangeiro pode se encher de comida e não querer comer dos pratos principais, servidos ao final, o que é interpretado como ofensivo. Carlos Tavares recomenda prestar atenção especial ao prato chinês para ocasiões especiais, o pato laqueado. Assim que os comensais se assentam, vão sendo servidas iguarias de pato, como asas, pé, coração e outros miúdos, mas o convidado deve se conter na degustação desses pratos deliciosos, pois senão não poderá comer o prato principal, o próprio pato, que é servido ao final e deve ser comido como recheio de sanduíches com pão e temperado com molho de soja.

Também é importante, para manter conversas, ter noções abrangentes sobre a milenar cultura chinesa. Para isso é útil ler livros sobre a China, como os do próprio Carlos Tavares, que incluem China – o que é preciso saber, lançado em 2004, e China, origens da humanidade, a ser lançado nos próximos meses, ambos pela Aduaneiras, de São Paulo. Neste último livro, Carlos Tavares conta como os chineses são responsáveis por mais de setenta entre as principais invenções humanas. Além das mais conhecidas, como a bússola, a pólvora, o papel e a imprensa, as invenções chinesas incluem a cerveja, o vinho, o próprio futebol, as cartas de navegação. Carlos Tavares julga que já está provado que navegantes chineses atingiram a América bem antes de Colombo. Ele sabe do que está falando: afinal, já em 1992, ele lançou, pela Foglio, do Rio de Janeiro, o livro China, superpotência do século 21 – lema que só muitos anos mais tarde se tornou um lugar comum –, com prefácio do empresário Horácio Coimbra, da Cacique, a primeira empresa brasileira a se ter estabelecido na China.

Até que esses encontros se tornassem possíveis, no entanto, no decorrer de milênios houve muito desencontros entre a China e o Ocidente.

O povo chinês tem mais de 7 mil anos de história e há indícios que descobriram a América.

As origens remotas do afastamento entre Oriente e Ocidente e a sua recente aproximação e seu futuro
Durante milênios, apesar de contatos mais freqüentes e mais intensos do que se costuma imaginar, Ocidente e Oriente viveram trajetórias separadas e diferenciadas. À procura da origem dessas diversidades, muitos estudiosos chegaram à conclusão de que o que caracteriza o Ocidente é o individualismo e o que caracteriza o Oriente é o coletivismo, ou, mais exatamente, o comunalismo. Isso teria uma explicação remota no tempo. As primeiras comunidades humanas se dedicaram à caça, pesca e coleta, e os seres humanos se organizavam em tribos. Em seguida, com o surgimento da agricultura, apareceram as primeiras aldeias; depois, federações de aldeias comandadas por uma cidade. Nessa fase, nas aldeias e nas cidades, surgiram os primeiros governos e forças armadas, sustentadas por tributos arrecadados primeiro em espécie. Em troca de serem sustentados pelos agricultores e lavradores, administradores e soldados regulavam as relações sociais e econômicas, e protegiam a sociedade contra invasores e agressores.

Pouco a pouco foram se organizando federações de cidades, em reinos e impérios, em particular para controlar a distribuição das águas dos rios e córregos entre as propriedades agrícolas familiares, que eram constituídas de posseiros livres, mas controlados, pois tinham de cumprir cotas de produção e de tributos. Não havia escravos nas propriedades agrícolas, mas sim no serviço doméstico, nas obras públicas, como canais, templos, e no serviço militar. Aliás, não se pode falar em propriedades agrícolas, pois todas as terras eram de propriedade da comunidade, na pessoa do rei ou imperador, que atribuía a posse de cada terreno e de cada empresa a verdadeiros funcionários públicos nomeados, esquema semelhante funcionando para a nomeação de arrecadadores locais de tributos e administradores, que chefiavam soldados armados. Isto prevalecia em todo o mundo então civilizado, na Mesopotâmia, Irã, Índia, China, Meso-América, Peru.

Foi então que ocorreram, por volta de 2 mil ou 1.500 anos antes de Cristo, os eventos decisivos que diferenciaram Ocidente e Oriente. Invasores vindos do norte e do leste ocuparam o território que hoje constitui a Grécia e, mais tarde, a Itália, e transformaram em escravos os agricultores que lá se encontravam, em propriedades individuais outorgadas aos principais chefes invasores. Surgiam ao mesmo tempo, no Ocidente, o escravismo agrícola, a propriedade privada e o individualismo dos proprietários, enquanto nas outras partes do mundo continuavam a prevalecer a propriedade comunal, na pessoa do soberano, e o comunalismo.

Desde então, a história do Ocidente, segundo muitos estudiosos, passou a oscilar entre a liberdade e a igualdade. A liberdade dos proprietários individuais permitia que os mais capazes dentre eles ocupassem mais espaço social, econômico e cultural, e os proprietários menos favorecidos, baseados em que eram igualmente proprietários, exigiam igualdade de direitos, particularmente direitos políticos. Surgia então, pela primeira vez na história, na Grécia antiga, a noção de democracia, ou seja, a noção de igualdade de direitos políticos entre os proprietários – já que os não proprietários, ou seja, naquela época, os escravos, estavam excluídos de qualquer direito.

Fora do Ocidente, entretanto, a oscilação era entre comunidade e eficiência. Sucediam-se períodos em que prevalecia o comunitarismo, a noção de que cada um fazia parte de um todo social e cada um tinha um lugar bem definido e sempre digno dentro da sociedade, e períodos em que prevalecia a busca de eficiência, em que os mais eficientes garantiam privilégios a que os menos eficientes não tinham acesso.

Dentro dessas linhas, segundo muitos pesquisadores, é que teriam ocorrido os percalços históricos subseqüentes. No Ocidente, a propriedade individual se transmutou de escravista em feudal e, depois, em empresarial. Os antigos escravos se transmutaram em servos semi-livres, que tinham de trabalhar parte do tempo nas terras do senhor feudal, mas, fora disso, trabalhavam em suas próprias terras e, além do necessário para a subsistência, tinham direito de dispor livremente do excedente, isto é, de vendê-lo a particulares. Daí em diante a história é bem conhecida, a da transição para a sociedade empresarial, em que continuou a prevalecer progressivamente a noção de democracia, a noção de igualdade de direitos políticos entre os livres proprietários, primeiro restrita aos proprietários de empresas, e depois, ao longo dos séculos 19 e 20, estendida também para os proprietários inicialmente só de si mesmos, os assalariados, capazes, ao contrário dos escravos e dos servos, de dispor livremente, em tempo integral, no mercado de trabalho, das suas aptidões de trabalho e da possibilidade de negociar seu preço. Essa seria a história da democracia ocidental.

Uma contraprova indireta dessa tese é o caso excepcional do Japão. Neste, por volta da Idade Média européia, os antigos funcionários públicos nomeados para administrar cada região e arrecadar os impostos de que tinham de reservar grande parte para o governo central do imperador, se revoltaram para aumentar suas partes dos tributos e se transformaram em senhores feudais, isto é, em proprietários individuais semelhantes aos europeus da mesma época. Isso facilitou a transformação da sociedade japonesa numa sociedade empresarial semelhante às suas contrapartidas na Europa e na América. Essa seria a raiz do fato de a democracia de livres proprietários, seja de empresas, seja de suas próprias pessoas, ter triunfado também no Japão.

Na Rússia, em que prevalecia uma situação intermediária entre o Ocidente e o Oriente, foi possível instalar-se uma economia empresarial, mas sob a égide e o controle do Estado, primeiro do Estado tzarista, depois do Estado comunista e em seguida do Estado pós-comunista, em que a tendência maior não tem sido a oscilação entre a liberdade e a igualdade e a prevalência da democracia, mas sim a antiga oscilação entre a comunidade e a eficiência e a prevalência do autoritarismo.

A China seguiu trajetória mais semelhante à da Rússia do que à do Japão, com exceção de que o Estado pós-comunista que controla a economia empresarial continua dirigido por comunistas. Resta à história no futuro decidir se, após um período de predomínio da eficiência, se sucederá na China novo período de comunitarismo, ou se, como no Japão, mas em circunstâncias diferentes, os proprietários passarão de controlados a livres, a mão-de-obra passará a poder negociar livremente o seu preço no mercado e assim se constituirão as condições de instauração de uma democracia semelhante à ocidental e à japonesa.

Um brasileiro na China: livro do jornalista Gilberto Scofield Jr. aborda comportamento, história, cultura, economia e outros assuntos variados.

O cotidiano da China atual
Mas como é, em termos mais concretos, a vida dos chineses, que constituem um quinto da população do mundo e levam adiante a economia mais dinâmica do planeta. Um dos livros mais importantes a ter saído no Brasil recentemente sobre a China é, sem dúvida, Um brasileiro na China – O olhar de um jornalista estrangeiro sobre o país que mais cresce no mundo, de Gilberto Scofield Jr., correspondente do jornal carioca O Globo em Pequim, editado pela Ediouro. Sua principal contribuição parece ser o desmentido à visão muito difundida de que a China seria um país parecido com o Japão. Ao contrário, segundo Scofield, o país não é nada zen e tranqüilo, nada disciplinado e organizado. Como se pode ver na foto que ilustra a capa do livro, em que pessoas que andam de bicicleta seguem diferentes direções, seja qual for o ponto da pista onde estejam, correndo o risco permanente de colisões, a paisagem urbana da China é um caos tanto no trânsito de veículos e no tráfego de pedestres, como nas novas construções que se sucedem ininterruptas praticamente em toda a cidade, em meio à poeira e ao barulho, e sob uma espessa nuvem de poluição absolutamente sem controle.

Não existe, na milenar cultura chinesa, a noção de fila, que só agora o governo está fazendo campanha para implantar, por causa das Olimpíadas. A insegurança permanente se repete nos meios de transporte público, em que os que querem entrar no metrô, que sempre são uma massa de pessoas, se chocam com os que querem sair, que invariavelmente são outra massa de pessoas – e nesse entrechoque vencem os mais fortes. Pois o governo não consegue impor a noção de que os que saem do metrô têm precedência sobre os que entram, como acontece em quase todos os países. Também os motoristas de veículos não têm a noção de via preferencial nos cruzamentos, que sempre são um palco de desafios.

Por trás de todo esse caos urbano, estão as enormidades demográficas da China. Afinal, nesse país se concentra um quinto de toda a população mundial. Há muitos anos já que o governo estabeleceu um pesado imposto sobre os rendimentos do casal que tenha mais de um filho e se estima que finalmente a vasta população da China vá começar a se estabilizar e em seguida vá cair, a partir de 2040. Por enquanto, os casais vão procurando meios de driblar essa "proibição de ter mais de um filho". Como os homens são considerados mais importantes do que as mulheres, e numa prática que antigamente era mais comum, se dava "um jeito" (infanticídio) se o primeiro bebê fosse menina, e assim por diante, até que nascesse um menino – a tal ponto que, nas gerações mais jovens, há bem menos mulheres do que homens e boa parte destes estão condenados à solteirice vitalícia. Mais recentemente, se descobriu que mesmo mulheres férteis, se fizerem tratamento de fertilidade antes reservado às inférteis, aumentam as chances de terem gêmeos, caso em que não se aplica a "lei do segundo filho" – e o resultado é que há um número excepcionalmente grande de nascimentos de gêmeos nas maiores cidades chinesas.

Na China, como nos países muçulmanos, os homossexuais continuam sendo malvistos, como eram no Ocidente até a segunda metade do século 20. Afinal, na Grã-Bretanha de até então, o homossexualismo era muitas vezes considerado crime. Os homossexuais chineses, até 2001, eram considerados oficialmente doentes mentais; afinal, a Associação Psiquiátrica Americana só retirou o homossexualismo da lista de doenças mentais nos anos 1950.

O governo estabeleceu um pesado imposto sobre os rendimentos do casal que tivesse mais de um filho.

A China alardeia que lá vigora a liberdade religiosa, mas isso só é válido para os cultos considerados leais ao regime. No caso dos católicos romanos, só se toleram os que não reconhecem o papa; no caso dos budistas tibetanos, só se toleram os que não reconhecem o Dalai Lama e sim o Panchen Lama, nomeado pelas autoridades chinesas. Seitas como a Falun Gong não são toleradas e seus membros são sistematicamente perseguidos e mesmo detidos, presos e condenados.

A China não constitui um Estado-nação e sim um Estado multinacional, em que as etnias não chinesas, como os tibetanos e os uigures, são oprimidas, sem autonomia política e sempre sofrendo tentativas de desenraizamento cultural. Aliás, ao longo da história, a maior parte dos Estados, como o Império Romano, foram multinacionais mas nos últimos séculos, e com a difusão cada vez maior da economia empresarial, que precisa de mercados unificados culturalmente, tem vigorado cada vez mais a tendência a Estados nacionais, como mostram a dissolução, no começo do século 20, do Império Otomano e do Império Austro-Húngaro, e, no fim do século passado, da União Soviética e da Iugoslávia. Os recentes acontecimentos no Tibete mostram que o Estado multinacional chinês também corre riscos de dissolução.

Quanto à política entre os próprios chineses dominantes, existem muito dissidentes, desde pró-ocidentais até comunistas radicais que querem eliminar a iniciativa privada. Quando adquirem alguma força, ou repercussão internacional, esses dissidentes ficam sujeitos a ser demitidos de seus empregos, destituídos de seus cargos, detidos e até mesmo condenados à prisão.

121) Conference on Security in East Asia - Washington, January 25, 2010

Announcing a new FPRI conference and webcast.

POWER IN EAST ASIA:
What Is It? Who Has It? How Is It Changing?


A Conference Sponsored By Foreign Policy Research Institute and the Reserve Officers Association

Date: Monday, January 25, 2010
Place: Reserve Officers Association
One Constitution Avenue NE
Washington, DC

What types of power matter, and who has how much of it, in East Asia today and in the future? Has U.S. hard and soft power declined at least relatively and what are the consequences of the U.S.’s continued focus on other issues and the agenda of the Obama administration?
What are the implications of China’s rising power and influence and its "charm offensive"? What do such developments portend for China’s cooperation and conflict with the U.S., Japan, and others? Where do Japan’s long-term economic troubles, long-debated constraints on its security role, a new government and a changing environment leave this major regional power? What are the consequences for smaller power, including Taiwan and Korea, of changes in their external environments?
What do domestic developments in these lesser power in their foreign relations mean for greater powers and relations among them?

To explore these questions, FPRI and ROA have invited leading experts in the field to participate in a day-long conference and webcast.

The conference is free for members of FPRI and ROA, and $30 for non-members.
The webcast is free.

For additional information and updates, see:
www.fpri.org/research/asia/powereastasia

Or contact: Alan Luxenberg
Tel: (215) 732-3774 x105
Email: lux@fpri.org

Schedule
All times Eastern Time Zone

8:30 a.m. Registration and Refreshments
9:00 a.m. Opening Remarks
9:15 a.m. Panel 1: Rising China's Military and Economic Power and the Emerging East Asian Security Order; Paper: Robert Ross, Professor of Political Science, Boston College
Commentators: Jacques deLisle, Director, FPRI Asia Program; Professor of Law, University of Pennsylvania

10:30 a.m. Coffee Break

10:45 a.m. Panel 2: Japan in Asia: A Hard Case for Soft Power; Paper: Thomas Berger, Associate Professor of International Relations Boston University
Commentators: [TBA]

12:00 p.m. Lunch

1:00 p.m. Luncheon Address: U.S. Policy and the Region; Michael Green, Japan Chair - Center for Strategic and International Studies, Associate Professor of International Relations, Georgetown University

Introduction by Jacques deLisle, Director, FPRI Asia Program

2:15 p.m. Panel 3: Korea, Taiwan, and the Challenges for Smaller States
Paper: Status and Leadership on the Korean Peninsula; David Kang, Professor of International Relations and Business - University of Southern California
Paper: Suffering What They Must? Mongolia, Taiwan, and the Limits of Independence; Alan Wachman, Associate Professor of International Politics - Fletcher School of Law and Diplomacy, Tufts University
Commentators: Katy Oh Hassig, Senior Fellow, Institute of Defense Analyses; Nancy Bernkopf Tucker, Professor of History, Georgetown University

4:00 p.m Concluding remarks: Harvey Sicherman, President, FPRI

The conference will be webcast live.
To register for webcast only visit:
http://register.webcastgroup.com/l3/?wid=0650125105015

Foreign Policy Research Institute
1528 Walnut Street, Suite 610
Philadelphia, PA 19102

120) Shanghai Cooperation Organization: article on Foreign Relations

Cooperation Gets Shanghaied
China, Russia, and the SCO
Alexander Cooley
Foreign Affairs, November/December 2009, Volume 6, Number 88

ALEXANDER COOLEY is Associate Professor of Political Science at Barnard College, Columbia University, and a fellow at the Open Society Institute.

The recent rise of the Shanghai Cooperation Organization (SCO) -- a mutual security assembly comprised of China, Russia, Kazakhstan, Kyrgyzstan, Tajikistan, and Uzbekistan -- has been met with skepticism in the West. Some fear that it has nefarious intentions to control Central Asia; others worry that the West will somehow be left behind in the region if it does not engage with the SCO. Since its founding in 1996 as a forum for negotiating lingering Soviet-Chinese border disputes, the SCO's mission has broadened to promote regional security and economic cooperation, and combat what its members call the "three evils": separatism, extremism, and terrorism. As its agenda has expanded, so, too, have Western concerns.

When the heads of the SCO countries called for a timetable for closing U.S. military bases in Central Asia at its annual summit in 2005, the SCO appeared to be positioning itself against U.S. influence in the region. Days later, Uzbekistan ousted American forces from a base in Karshi-Khanabad. And that same year, the SCO strongly condemned the Western-backed color revolutions that were sweeping across Eurasia, along with the Western NGOs that were supporting the movements.

Five years later, however, predictions that the SCO would develop into a full-blown anti-West alliance have proven exaggerated. Despite claims of widespread cooperation, the SCO has failed to translate its official announcements into actual regional cooperation. And although China has been able to use the organization to project its influence across Central Asia, Russia has remained reluctant to deepen its participation. Subtle but key differences in the regional security priorities of the two countries have started to play out.

Russia regards Central Asia as its "zone of privileged interests." For the past two decades, Moscow has sought to embed the states of Central Asia in a system of Russia-controlled institutions -- the Collective Security Treaty Organization (CSTO), a mutual defense alliance; the Eurasian Economic Community (EurAsEC), a customs union; and the Commonwealth of Independent States (CIS), a loose federation of former Soviet countries. At the same time, it has actively worked to block Western actors such as NATO. China, in contrast, has been focused not so much on countering the West as on stabilizing its own western territory: the autonomous province of Xinjiang, which borders the Central Asian states.

When the color revolutions erupted across Eurasia between 2000 and 2005, Moscow's and Beijing's security agendas were aligned. Both feared Western-backed democratization in Eurasia -- Moscow because its own influence over the regimes there would wane, and China because democratization could set a dangerous example for its hinterland.

However, the Russia-Georgia war in 2008 revealed the real gap between Russia's and China's security agendas. Just a few days after the EU-brokered cease-fire, Russian President Dmitry Medvedev arrived at the SCO's annual summit in Dushanbe to request support for Russia's recognition of the independence of Abkhazia and South Ossetia, the breakaway Georgian provinces. China and the Central Asian states stood firm against the request. Moscow's dealings with separatist entities did not square with China's security interests, nor with the principle of noninterference in countries' internal affairs. Similarly, Russia's efforts to grant passports to Russian-speaking residents in the disputed territories of Georgia just before the war alarmed the Central Asian states, most of which have substantial Russian populations. After this diplomatic rebuke, Moscow redoubled its efforts to promote the CSTO, an organization that includes the same Central Asian states but is safely in Russia's pocket.

Moscow's misadventure can be contrasted with China's success in winning SCO support during the outbreak of violence between the Uighur Muslims and Han Chinese in Urumqi, Xinjiang, last July. Within a few hours of the flare-up, the Chinese Ministry of Foreign Affairs circulated a statement to other SCO members describing events in Xinjiang as "China's internal matter" and the Chinese actions as designed to "restore order in the region." Since the statement aligned with the SCO's position on internal affairs, it was quickly endorsed by all SCO members and adopted as the assembly's official position.

As the SCO mission expands to include economic cooperation, the gap between Russian and Chinese interests has become even more apparent. Wary of Beijing's economic predominance, and thus its ability to use the SCO to its own economic ends, Russia has blocked many efforts to deepen integration. Moscow opposes Chinese Premier Wen Jiabao's proposal to create an SCO free-trade area. Instead, it champions the expansion of EurAsEC, which includes Russia, Kazakhstan, Kyrgyzstan, Tajikistan, and Belarus but notably excludes China.

The global financial crisis has magnified differences in Russian and Chinese economic potential and ambition. Moscow has been hard hit by the crisis; it has been forced to scale back many of its projects in Central Asia and to renegotiate the terms of unprofitable regional energy deals. Moreover, many of the projects that it has not abandoned -- such as the Kambarata hydroelectric power plants in Kyrgyzstan -- seem to be based more on political goals than commercial considerations and will likely be a drain on Russia's coffers.

By contrast, China, whose financial system was shielded from the crisis, has stepped up its economic activities in Central Asia, dispensing substantial bilateral financing under the guise of the SCO. Beijing has recently concluded massive loans-for-hydrocarbon deals with Kazakhstan and Turkmenistan and has increased its investments in infrastructure in SCO states along its border, connecting them evermore to western China. And Beijing has unilaterally created a $10 billion "anti-crisis" stabilization fund within the SCO, offering cheap, short-term financing for such priority sectors as energy and infrastructure, after Moscow refused multiple requests to co-finance the fund. Moscow prefers to create a EurAsEC-controlled fund or provide what bilateral assistance it can directly to weaker states.

Besides Russia-China tensions, the SCO faces another fundamental problem: its Central Asian members are unable -- and, in some cases, unwilling -- to fully accede to Russia's and China's plans. Moscow and Beijing remain concerned about the United States' presence in the area, but Kazakhstan, Kyrgyzstan, Tajikistan, and Uzbekistan have concluded commercial transit agreements with the U.S. military anyway, expanding northern U.S. supply routes to Afghanistan.

Further, the closed borders of Central Asia have important commercial value -- in the form of customs, tolls, and related jobs. The ruling elites of these countries often control border operations and other major sectors of the economy such as telecommunications and electricity. It is highly doubtful that they will willingly open them up to true external competition.

Thus, whatever the SCO's ambition for regional cooperation and influence, coordination among its members lags far behind. As a security collective, the SCO is weak and not the aggressively anti-Western bloc it appeared to be a few years ago. As such, it makes sense for the United States to work with the SCO to engage China and the Central Asian states on select Afghanistan issues, such as securing borders and combating the narcotics trade, as part of its broader efforts to involve more regional and multilateral partners. Additionally, any Western engagement with the SCO on security matters would be useful, in as much as it undercuts Moscow's efforts to dominate the region with the CSTO.

In nonsecurity matters, the SCO is even weaker. While it seeks international recognition for its role in integrating the region, it is unclear whether it has or ever will succeed. Ultimately, the SCO should deliver some tangible accomplishments before the West rushes to condemn or cooperate with it.

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Saturday, December 19, 2009

119) The Rape of Nanking: The Forgotten Holocaust of World War II

The Nanjing Massacre, 1937-38
Gendercide Watch, link

Summary
The Nanjing Massacre, also known as "The Rape of Nanking," is a rare example of simultaneous gendercides against women and men. It is generally remembered for the invading forces' barbaric treatment of Chinese women. Many thousands of them were killed after gang rape, and tens of thousands of others brutally injured and traumatized. Meanwhile, approximately a quarter of a million defenseless Chinese men were rounded up as prisoners-of-war and murdered en masse, used for bayonet practice, or burned and buried alive.

The background
The Second World War began in Asia. Japan's military dictators had long viewed China as the main outlet for their imperial and expansionist ambitions (for an overview, see Saburo Ienaga, The Pacific War 1931-1945). Japanese forces invaded and occupied Manchuria in northeast China in 1931, setting up the puppet state of Manchukuo. After the manufactured "Marco Polo Bridge Incident" of July 1937, the Japanese launched a fullscale invasion of China, capturing Shanghai on 12 November and the imperial capital, Nanjing, on 13 December. Numerous atrocities were committed en route to Nanjing, but they could not compare with the epic carnage and destruction the Japanese unleashed on the defenseless city after Chinese forces abandoned it to the enemy.

The gendercide against Chinese women
Murdered Chinese women and children are strewn across the steps of a Nanjing building. Women were killed in indiscriminate acts of terror and execution, but the large majority died after extended and excruciating gang-rape. "Surviving Japanese veterans claim that the army had officially outlawed the rape of enemy women," writes Iris Chang. But "the military policy forbidding rape only encouraged soldiers to kill their victims afterwards." She cites one soldier's recollection that "It would be all right if we only raped them. I shouldn't say all right. But we always stabbed and killed them. Because dead bodies don't talk ... Perhaps when we were raping her, we looked at her as a woman, but when we killed her, we just thought of her as something like a pig." (Chang, The Rape of Nanking, pp. 49-50). Kenzo Okamoto, another Japanese soldier, recalled: "From the time of the landing at Hangzhou Bay, we were hungry for women! Officers issued a rough rule: If you mess with a woman, kill her afterwards, but don't use bayonets or rifle fire. The purpose of this rule was probably to disguise who did the killing. The military code with its punishment of execution was empty words. No one was ever punished. Some officers were even worse than the soldiers." (Yin and Young, The Rape of Nanking, p. 188)

One eyewitness, Li Ke-hen, reported: "There are so many bodies on the street, victims of group rape and murder. They were all stripped naked, their breasts cut off, leaving a terrible dark brown hole; some of them were bayoneted in the abdomen, with their intestines spilling out alongside them; some had a roll of paper or a piece of wood stuffed in their vaginas" (quoted in Yin and Young, The Rape of Nanking, p. 195). John Rabe, a German (and Nazi) businessman who set up a "Nanking Safety Zone" in the city's international settlement and thereby saved thousands of Chinese lives, described in his diary the weeks of terror endured by the women of Nanjing. Though young and conventionally attractive women were most at risk, no woman was safe from vicious rape and exploitation (often filmed as souvenirs) and probable murder thereafter. "Groups of 3 to 10 marauding soldiers would begin by traveling through the city and robbing whatever there was to steal. They would continue by raping the women and girls and killing anything and anyone that offered any resistance, attempted to run away from them or simply happened to be in the wrong place at the wrong time. There were girls under the age of 8 and women over the age of 70 who were raped and then, in the most brutal way possible, knocked down and beat up." (Chang, The Rape of Nanking, p. 119.) In addition to those killed after the violation, historian David Bergamini notes that "Many immature girls were turned loose in such a manhandled condition that they died a day or two later. ... Many young women were simply tied to beds as permanent fixtures accessible to any and all comers. When they became too weepy or too diseased to arouse desire, they were disposed of. In alleys and parks lay the corpses of women who had been dishonored even after death by mutilation and stuffing." (Yin and Young, The Rape of Nanking, p. 195.)

Not all of the victims of rape were female. "Chinese men were often sodomized or forced to perform a variety of repulsive sexual acts in front of laughing Japanese soldiers," writes Chang. "At least one Chinese man was murdered because he refused to commit necrophilia with the corpse of a woman in the snow. The Japanese also delighted in trying to coerce men who had taken lifetime vows of celibacy to engage in sexual intercourse. ... The Japanese drew sadistic pleasure in forcing Chinese men to commit incest -- fathers to rape their own daughters, brothers their sisters, sons their mothers ... those who refused were killed on the spot." (Chang, The Rape of Nanking, p. 95.)

The gendercide against Chinese men
Young Chinese men, their hands bound, are led away for mass execution.On 5 December, even before Nanjing's fall, Prince Yasuhiko Asaka -- uncle of Emperor Hirohito -- issued a secret order to "Kill all captives." When Nanjing was taken, "All military-age men among the refugees were taken prisoner," whether or not they had actually been soldiers (Yin and Young, The Rape of Nanking, p. 76. Note that the Chinese Nationalist government's press-ganging of young men was possibly the most brutal and gendercidal in history -- see the case-study of Military Conscription).

At wharves along the Yangtze River, tens of thousands of these prisoners -- up to 150,000 in all -- were massacred in cold blood. A typical order, issued to the 66th Regiment 1st Battalion on 13 December, read as follows:

Battalion battle report, at 2:00 [p.m.] received orders from the Regiment commander: to comply with orders from Brigade commanding headquarters, all prisoners of war are to be executed. Method of executed: divide the prisoners into groups of a dozen. Shoot to kill separately. ... It is decided that the prisoners are to be divided evenly among each company ... and to be brought out from their imprisonment in groups of 50 to be executed. ... The vicinity of the imprisonment must be heavily guarded. Our intentions are absolutely not to be detected by the prisoners. Every company is to complete preparation before 5:00 p.m. Executions are to start by 5:00 and action is to be finished by 7:30. (Quoted in Yin and Young, The Rape of Nanking, pp. 110, 115.)

The aftermath of gendercide along the Yangtze River wharves. According to Iris Chang, "The Japanese would take any men they found as prisoners, neglect to give them water or food for days, but promise them food and work. After days of such treatment, the Japanese would bind the wrists of their victims securely with wire or rope and herd them out to some isolated area. The men, too tired or dehydrated to rebel, went out eagerly, thinking they would be fed. By the time they saw the machine guns, or the bloodied swords and bayonets wielded by waiting soldiers, or the massive graves, heaped and reeking with the bodies of the men who had preceded them, it was already too late to escape." (Chang, The Rape of Nanking, p. 83.) The Japanese held grotesque killing contests, including "a competition to determine who could kill the fastest. As one soldier stood sentinel with a machine gun, ready to mow down anyone who tried to bolt, the eight other soldiers split up into pairs to form four separate teams. In each team, one soldier beheaded prisoners with a sword while the other picked up heads and tossed them aside in a pile. The prisoners stood frozen in silence and terror as their countrymen dropped, one by one." (Chang, The Rape of Nanking, p. 85)

Atrocious tortures were also inflicted on the captive men. "The Japanese not only disemboweled, decapitated, and dismembered victims but performed more excruciating varieties of torture. Throughout the city they nailed prisoners to wooden boards and ran over them with tanks, crucified them to trees and electrical posts, carved long strips of flesh from them, and used them for bayonet practice. At least one hundred men reportedly had their eyes gouged out and their noses and ears hacked off before being set on fire. Another group of two hundred Chinese soldiers and civilians were stripped naked, tied to columns and doors of a school, and then stabbed by zhuizi -- special needles with handles on them -- in hundreds of points along their bodies, including their mouths, throats, and eyes. ... The Japanese subjected large crowds of victims to mass incineration. In Hsiakwan [along the Yangtze] a Japanese soldier bound Chinese captives together, ten at a time, and pushed them into a pit, where they were sprayed with gasoline and ignited." (Chang, The Rape of Nanking, pp. 87-88.)

How many died?
After the war, the International Military Tribunal of the Far cited "indicat[ions] that the total number of civilians and prisoners-of-war murdered in Nanking and its immediate vicinity during the first six weeks of the Japanese occupation was over 200,000. That these estimates are not exaggerated is borne out by the fact that burial societies and other organizations counted more than 155,000 bodies which they buried ... these figures do not take into account those persons whose bodies were destroyed by burning or by throwing them into the Yangtze River or otherwise disposed of by [the] Japanese." As well, "According to Japanese Lieutenant colonel Toshio Ohta's statement, between December 14 and December 18 the Japanese commanding headquarters of Nanjing Port disposed of 100,000 bodies while other troops disposed of 50,000." (Yin and Young, The Rape of Nanking, pp. 78, 90.) With the sole exception of the Nazi gendercide against Soviet POWs, this was the most concentrated massacre of prisoners-of-war in recorded history. The rapes and rape-murders of women were also of staggering proportions. "Certainly it was one of the greatest mass rapes in world history," writes Iris Chang. She notes that "it is impossible to determine the exact number of women raped in Nanking. Estimates range from as low as twenty thousand to as high as eighty thousand." (Chang, The Rape of Nanking, p. 89)

Who was responsible?
Senior members of the Japanese high command bearing direct responsibility for the mass atrocities in China included the Emperor Hirohito, who made all major military decisions, including the one to invade China in 1937; Hirohito's uncle, Prince Asaka, who issued the order to "Kill all captives" and was thus the main architect of the gendercide against Nanjing's men; General Yanagawa Heisuke; and Lieut. General Nakajima Kesago, commander of the 16th division, who "supervised the beheading of two prisoners-of-war to test his new sword, thus setting an example for his troops in mass-scale killing in Nanking" (Yin and Young, The Rape of Nanking, p. 284).

The aftermath
The massacres and mass rapes in Nanjing continued for a full six weeks, extending into January 1938. Eventually the genocidal rampage was replaced by a brutal occupation conducted under a puppet authority, the "Nanking Self-Government Committee." Life began to return to the city, and its population eventually re-stabilized at around 700,000, two-thirds of the prewar population. In August 1945, after atomic-bomb attacks on Hiroshima and Nagasaki, the Japanese surrendered to the United States and other allies. The Second World War was over.

In 1946-47, war-crimes trials were held in Nanjing. "Only a handful of Japanese war criminals were tried in Nanking," notes Chang, "but they gave the local Chinese citizens a chance to air their grievances and participate in mass catharsis." (Chang, The Rape of Nanking, p. 170.) Tani Hisao, a commander of the 6th Division which had committed many atrocities in Nanjing and elsewhere, was sentenced to death in March 1947 and executed the following month. The International Military Tribunal for the Far East tried nearly 30 key Japanese commanders, including Matsui Iwane, commander of the Central China Expeditionary Force. Iwane, however -- according to Chang -- "may have served as the scapegoat for the Rape of Nanking. A sickly and frail man suffering from tuberculosis, Matsui was not even in Nanking when the city fell" (Chang, The Rape of Nanking, p. 174). He was nonetheless executed along with six other "class A" war criminals in this Japanese equivalent of the Nuremberg trials. General Yanagawa Heisuke and Lieut. General Nakajima Kesago, two of the main Japanese field commanders in charge of the occupation of Nanjing, died of natural causes in 1945, and thus could not be prosecuted. Controversially, the Japanese imperial family, including Emperor Hirohito and Prince Asaka, received immunity.

A conscious attempt has been made by "revisionists" in Japan to deny or downplay the involvement of the Japanese military in massive atrocities during World War II. In September 1986, the Japanese education minister, Fujio Masayuki, referred to the Rape of Nanking as "just a part of war." In 1988, a 30-second scene depicting the Rape of Nanking was removed from Bernardo Bertolucci's The Last Emperor by the film's Japanese distributor. In 1991, censors at the Ministry of Education "ordered textbook authorities to eliminate all reference to the numbers of Chinese killed during the Rape of Nanking because authorities believed there was insufficient evidence to verify those numbers" (Chang, The Rape of Nanking, p. 208). And General Nagano Shigeto, a Second World War veteran appointed justice minister in Spring 1994, told a Japanese newspaper that "the Nanking Massacre and the rest was a fabrication."

Until the recent resurgence of interest in the Nanjing Massacre, the atrocities and their survivors had been largely forgotten. "After the war some of the survivors had clung to the hope that their government would vindicate them by pushing for Japanese reparations and an official apology. This hope, however, was swiftly shattered when the People's Republic of China (PRC), eager to forge an alliance with the Japanese to gain international legitimacy, announced at various times that it had forgiven the Japanese." Despite the fact that "the PRC has never signed a treaty with the Japanese relinquishing its right to seek national reparations for wartime crimes," no such reparations have been sought -- or offered. Overseas Chinese have, however, mounted increasing activist efforts. "The 1990s saw a proliferation of novels, historical books, and newspaper articles about the Rape of Nanking ... The San Francisco school district plans to include the history of the Rape of Nanking in its curriculum, and prints have even been drawn up among Chinese real estate developers to build a Chinese holocaust museum." (Chang, The Rape of Nanking, pp. 223-24.) Chang concludes her book, itself an important contribution to the revival of interest in these ghastly events, with a call for justice, however delayed:

Japan carries not only the legal burden but the moral obligation to acknowledge the evil it perpetrated at Nanjing. At a minimum, the Japanese government needs to issue an official apology to the victims, pay reparations to the people whose lives were destroyed in the rampage, and, most important, educate future generations of Japanese citizens about the true facts of the massacre. These long-overdue steps are crucial for Japan if it expects to deserve respect from the international community -- and to achieve closure on a dark chapter that stained its history. (Chang, The Rape of Nanking, p. 225.)

FURTHER READING:
Iris Chang: The Rape of Nanking: The Forgotten Holocaust of World War II (Penguin, 1998).
Chang's readable account has done a great deal to revive interest in the Nanjing Massacre.

118) Livre: Les Enjeux de l'Asie Centrale

Piatigorsky, Jacques; Sapir, Jacques (coord.):
Le Grand Jeu: Les enjeux géopolitiques de l’Asie Centrale
Paris, Éditions Autrement, 2009, 252 pp.

Historia Actual Online
Publicación: Asociación de Historia Actual
ISSN: 1696-2060
Número 19 (Primavera 2009), Páginas 225-227

Piatigorsky, Jacques; Sapir, Jacques (coord.), Le Grand Jeu: Les enjeux géopolitiques de l’Asie Centrale. Paris, Éditions Autrement, 2009, 252 pp.

Manuel Pérez Salinas1
Institut d’Etudes Politiques de Rennes, France
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Recibido: 15 Abril 2009 Revisado: 29 Abril 2009 Aceptado: 7 Mayo 2009 Publicación Online: 15 Junio 2009

Reseña de Libros

A finales de 2001 Estados Unidos, al frente de una coalición internacional, llevó a cabo la invasión de Afganistán, utilizando como pretexto la guerra contra el terrorismo. Casi ocho años después esta guerra no ha terminado y sigue siendo uno de los mayores quebraderos de cabeza de la diplomacia internacional –lo que uno de los autores llama acertadamente un “agujero negro” geopolítico-, lo que la ha covertido en el conflicto más mediático del momento. Sin embargo no debemos permitir que los árboles nos impidan ver el bosque, y ese es el objetivo que persigue esta obra: mostrarnos la complejidad, la importacia y la volatilidad de la zona en cuestión.

El primer gran desafío que encuentran los autores es el de definir un concepto tan ambigüo como el de “Asia Central”, decantándose por una visión tanto histórica como geográfica, que iría desde las costas orientales del mar Negro hasta les regiones más occidentales de China, como Xinjiang o Tibet. Esta interpretación de los territorios que corresponderían a Asia Central tiene como clara influencia el “Heartland” que Mackinder planteó a comienzos del siglo XX.

La obra se organiza en varios capítulos, correspondientes a diferentes periodos históricos. El primero de ellos –realizado por Sergeï Dmitriev- es un resumén relativamente breve de la historia de la región, en el que se demuestra como esta zona fue, desde los tiempos de Alejandro Magno, una encrucijada de pueblos, culturas y religiones. Antes de la llegada de los europeos las estepas de Asia Central fueron escenario de la aparición de estados como el de los Khazars, de los conflictos entre árabes y chinos y del surgimiento, entre otros, de los imperios de Genghis Khan o Tamerlán. En estas primeras páginas queda patente la diversidad cultural de la región, ya que vemos la llegada sucesiva del judaismo, el islam y el budismo, junto a una presencia, muy tardiamente eliminada, de los cultos paganos.

El capítulo que sigue, y que da nombre al libro- el “Gran Juego” fue una expresión creada por uno de sus actores, Arthur Conolly y que quedó inmortalizada en la obra de Rudyard Kipling “Kim”- trata sobre el duelo que libraron Gran Bretaña y Rusia en esta región, relatando los principales acontecimientos del mismo. Entre ellos habría qur destacar la escalada de tensión de los años 40 del siglo XIX, que no acabó en una guerra por las inesperadas derrotas de las expediciones británica y rusa a manos de fuerzas locales. Otro momento crucial fue la Guerra de Crimea (1853-1856), única guerra abierta entre las dos potencias, que se saldó con la derrota de Rusia. También habría que destacar el gran motín de los cipayos del año 1857, en el que los británicos quisieron ver la mano de la inteligencia rusa. El último gran episodio del “Gran Juego” fue la guerra ruso-japonesa, (1904-1905) en la cual Japón fue apoyado por Gran Bretaña, que quería evitar un aumento de la presencia rusa en China. Estos son algunos ejemplos de hasta que punto las relaciones entre ambos países fueron tensas, lo que lleva al autor de este capítulo –Alexey Tereshhenko- a reflexionar sobre el evidente paralelismo entre las relaciones anglo-rusas del siglo XIX y las ruso-americanas del periodo que denominamos “Guerra Fría”. Otras semejanzas que podemos encontrar en estas dos “guerras frías” son el uso de la propaganda con el fin de demonizar al contrario, el uso de fuerzas locales para llevar a cabo una guerra indirecta o la existencia de la paradoja del elefante y la ballena, es decir la imposible lucha entre una potencia terrestre y una potencia naval. En conclusión podemos ver como el siglo XIX conoció una suerte de “Guerra Fría” que tuvo como escenario Asia Central y cuyos actores más destacados fueron Gran Bretaña y Rusia. Este duelo anglo-ruso terminó en 1907, cuando ambos países comprendieron que Alemania representaba un peligro más inmediato y formaron, junto a Francia, la Triple Entente.

Sin embargo, aunque hablemos del paralelismo entre el “Gran Juego” y la “Guerra Fría”, lo cierto es que durante el siglo XX la mayor parte de Asia Central formó parte de la órbita soviética, quedando en segundo plano frente a escenarios más candentes como América Latina o África. Como se ha dicho al comienzo de esta reseña el regreso de Asia Central al primer plano mundial comenzó con la invasión de Afganistán en 2001. Para comprender las repercusiones y la importancia en la actualidad de esta región Jacques Sapir apunta algunos datos. En primer lugar, los Estados Unidos buscan una alternativa a los oleductos rusos para transportar el petróleo del Mar Caspio –de ahí la importancia de Afganistán y Pakistán-. Además debemos tener en cuenta la dependencia energética de Europa respecto a Rusia, que se vería disminuida si la Unión Europea alcanzase acuerdos comerciales ventajosos con las antiguas repúblicas soviéticas de Kazakhstán, Tadjikistán, Uzbekistán o Kizghizistán. Además el autor explora la hipótesis de que los momentos iniciales de la guerra de Afganistán fueron una oportunidad perdida para asegurar el futuro de la región. En efecto, los Estados Unidos iniciaban su guerra contra el terror y al-Qaeda con un fuerte respaldo internacional, incluyendo la renacida Rusia de Putin -que debe lidiar con la insurgencia chechena- y China –también enfrentada al radicalismo islámico en la región de Xinjiang-, que tendieron una mano al gobierno de George Bush Jr.. El autor lamenta que el gobierno norteamericano rechazase esta ayuda y tomara la decisión de invadir Irak de forma unilateral en 2003, dando lugar a un deterioro de la relaciones con Rusia -reforzando los lazos de esta con Iran- y a un verdadero resurgimiento del “Gran Juego”. En este nuevo contexto debemos enmarcar el conflicto diplomático entre Rusia y Ucrania, que privó a esta de gas en el año 2006 o la reciente guerra de Georgia. Además, la creación en 2001 de la Organización de Cooperación de Shangai, que agrupa a Rusia, China, Kazakhstan; Tadjikistan, Uzbekistan y Kizghizistan (ademós de India y Pakistan como observadores) y que tiene competencias en el ámbito militar es otro elemento a tener en cuenta en la geoestrategia de la región.

El penúltimo episodio se dedica a la política y a las perspectivas de la Unión Europea en la región, las cuales no son presentadas como muy esperanzadoras, ya que hasta hace poco las relaciones han sido bilaterales y además escasas. Frente a la escasa atención que la Unión Europea ha prestado a esta región nos encontramos con los vínculos históricos de Rusia, la presencia China y reciente llegada de los Estados Unidos.

El episodio final, se dedica a la presencia del “Gran Juego” en la cultura, haciendo un repaso a las principales obras literarias, artísticas y cinematográficas acerca de este periodo, incluyendo aquellas de un marcado carácter propagandístico

En conclusión esta obra nos plantea la reflexión acerca de los problemas que puede presentar esta región en el futuro y sobretodo nos advierte que la tendencia actual podría llevarnos a una guerra de mayores dimensiones entre las nuevas potencias que aspiran a controlar la región. Respecto a los aspectos negativos habría que destacar dos. En primer lugar la dispersión de los contenidos, ya que parece que los autores no tenían muy claros cuáles eran sus objetivos, puesto que casi toda la obra se dedica a relatar la evolución histórica de la región, pero a la hora de extraer conclusiones se refieren a los hechos más recientes, a los que por comparación, se les dedica muy poco espacio. Otro aspecto negativo, en relación con el anterior es la ingente cantidad de información que recibe el lector, especialmente en el primer capítulo, en el que se nombran todas las entidades estatales surgidas en Asia Central desde la Antigüdad y muchos de sus gobernantes, lo que hace que sea complicado establecer la relación entre unos y otros.

Pese a estos defectos este libro es una lectura interesante, que puede ser consultada para obtener información sobre esta región y que además plantea cuestiones dignas de ser tenidas en cuenta.

117) Book: 'When China Rules the World' by Martin Jacques

WHEN CHINA RULES THE WORLD
By Seth Faison
The Washington Post, Sunday, December 20, 2009; B07

Book review:
When China Rules the World
The End of the Western World and the Birth of a New Global Order

Martin Jacques
Penguin. 550 pp. $29.95

Martin Jacques, a British news columnist, became fascinated by the manic modernization underway in China when he visited there in 1993. He saw construction cranes working round the clock, roads streaming with trucks and carts, and peasant women balancing wares on either end of a bamboo pole. The vibrant energy and evident willpower got Jacques musing: Would the economic boom follow the Western model? Or would China pursue modernity in its own way?

Jacques went for a holiday in Malaysia. One day, while he was out for a run on the beach, his eye chanced upon a dark and attractive woman. A 26-year-old lawyer, she was not an obvious match for a pink-skinned, pointy-headed, chronically unmarried Brit who was nearing 50. But the woman, Hari Veriah, who was born in Malaysia to Indian parents, was fearless and modern-minded, and her Asian perspective was like tinder to his spark.

As Veriah and Jacques spent time together, she challenged his assumptions and encouraged him to deepen his exploration of the East-vs.-West dynamic. His musings led to research. Trained in number-crunching and Marxist historical analysis and bolstered by extended sojourns in Asia, Jacques honed a convincing answer to his original question. For the better part of 15 years, with one tragic interruption, he dug and dug and then transformed his scholarly spadework into accessible, inviting prose.

The result is "When China Rules the World," a compelling and thought-provoking analysis of global trends that defies the common Western assumption that, to be fully modern, a nation must become democratic, financially transparent and legally accountable. Jacques argues persuasively that China is on track to take over as the world's dominant power and that, when it does, it will make the rules, on its own terms, with little regard for what came before.

China is growing at a tremendous rate. Yet it refuses to follow the Western model of establishing genuine elections, an independent judiciary and a freely convertible currency. In fact, its restrictive currency rules have made China the world's leading creditor, while the United States sinks ever deeper into debt. And while the United States sacrifices the lives of its soldiers in Iraq and Afghanistan, the Chinese make money in both countries without losing a drop of blood.

Jacques is a superb explainer of history and economics, tracing broad trends with insight and skill. He does not shy away from the considerable challenges China faces. Yet he glosses over Mao's terrors too easily. He stumbles badly when trying to describe what a new Chinese-led international order might look like, implausibly imagining a return of the old tributary system, where small neighboring states paid in gifts and gold to the reigning power: China. His theories about the significance of a Chinese "civilization" over a Chinese "nation" seem silly and misplaced.

Books about the future never get it right. But this one offers tasty meat to chew on. Its prime achievement is to identify and then annihilate what may be the greatest flaw in Western thinking today: the assumption that economic and political progress must follow the Western model. Like the Brits and the Romans before us, we Americans may be unable to see the end of empire until it is too late. Personally, I felt humbled by Jacques's insights. As a journalist who lived and breathed China for years, I felt sure that the Communist Party, following its loss of credibility at Tiananmen, would fall to ashes. During the boom of the 1990s, I knew that economic modernization would force Chinese institutions to become accountable and democratic. I was wrong again and again. My assumptions were out of date.

Still, one can't help wondering if China's trajectory, as unwavering as it may look now, may fizzle. Take, for instance, China's inability to accept or integrate outsiders -- Jacques calls it "the Middle Kingdom mentality." He explores it and China's prevalent racism in detail, for reasons that grew from painful experience.

Jacques and Veriah married and moved to Hong Kong, where she suffered an epileptic seizure and was hospitalized. She warned Jacques that the Chinese medical staff was treating her like a third-class citizen because of her dark skin and Indian ancestry. The next day she died. Jacques later determined that negligence by the hospital staff had killed her.

Left with their 1-year-old son, Jacques was devastated. It was two years before he could pick up a pen. When he did, his work was infused with a passion that honors the woman who brought him to rethink his approach to China. Her death stands out as a symbol of China's dark limitations and leaves us with questions about its future.

Seth Faison is the author of South of the Clouds: Exploring the Hidden Realms of China.

Wednesday, December 16, 2009

116) Muralha da China na Internet: indevassavel

China dificulta a criação de sites independentes
DO "FINANCIAL TIMES", EM PEQUIM
Folha de São Paulo, quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pequim proíbe pessoas físicas de registrarem domínios próprios na internet
Para abrir um site, cidadãos chineses terão de ter licença empresarial; ativistas veem medida como uma forma de reforçar a censura on-line

A China proibiu pessoas físicas de registrarem nomes de domínio de internet, na mais severa medida adotada por Pequim até o momento em sua campanha por reforçar a censura sobre a mídia on-line.
Desde anteontem, as pessoas que quiserem registrar nomes de domínio na China têm a obrigação de apresentar um carimbo de empresa e uma licença empresarial, informou o China Internet Network Information Center (CNNIC), um órgão vinculado ao governo, em comunicado.
"Começamos a revisar os nomes de domínio registrados por indivíduos, como determinou o CNNIC", disse um representante do HiNet, um dos maiores provedores chineses de acesso à internet.
Funcionários do governo disseram que a medida é parte de uma campanha de repressão ao conteúdo pornográfico, mas blogs e ativistas de internet a interpretaram como parte de uma tentativa mais ampla de impor maior censura à internet.
"Caso eles realmente imponham essa decisão, teremos de registrar nossos sites fora da China", disse um blogueiro. A decisão se segue a uma série de medidas de repressão à internet e ao conteúdo da mídia, devido ao nervosismo cada vez mais perceptível do governo chinês com relação ao conteúdo gerado por usuários, que as autoridades estão lutando para controlar.
Pequim controla a internet por meio de um sistema sofisticado. Ele inclui vigilância em todos os níveis de governo, mas também depende fortemente dos portais e de outros sites que hospedam conteúdo e exercem funções de censura em nome das autoridades.
O sistema vem sofrendo pressão cada vez maior dada a ascensão rápida da mídia social, dominada pelo conteúdo gerado por usuários. Sites pessoais são um incômodo para o governo porque censurá-los é mais complicado do que fiscalizar o conteúdo gerado por usuários em sites de hospedagem maiores.
Na semana passada, a Administração Estatal do Rádio, Cinema e Televisão fechou alguns sites de vídeo, mencionando violações de direitos autorais e conteúdo inapropriado. Na mesma semana, o governo anunciou que mais de 3.000 pessoas haviam sido detidas por suposto envolvimento com a distribuição de conteúdo pornográfico via internet.
Neste ano, as autoridades bloquearam diversos sites de mídia social, entre os quais YouTube, Facebook e Twitter, e alguns de seus clones locais.
Como no caso de outras questões consideradas sensíveis pelo governo, a propriedade de nomes de domínio por indivíduos sempre foi uma área cinzenta na China, em termos judiciais. "O governo jamais abriu o registro de nomes de domínio por indivíduos. Havia apenas algumas lacunas", disse Xue Hong, especialista do setor. "A CNNIC agora agiu para reforçar a regulamentação."
Estimativas indicam que pessoas físicas respondam pela maioria dos domínios registrados no mundo. Mas a China não divulga estatísticas sobre nomes de domínio discriminados por categoria de proprietário.
Segundo a CNNIC, a China tinha 16,3 milhões de nomes de domínio em junho deste ano, 80% dois quais com o sufixo nacional ".cn". Os demais usam ".org", ".net" ou ".com".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Monday, December 14, 2009

115) Em Shanghai, pela primeira vez...

O texto abaixo, que reune algumas reflexões pessoais a caminho de Shanghai, foi escrito, como indicado, a caminho da cidade, ainda no vôo da Air France que me levou da capital francesa à metrópole chinesa (não a maior cidade, como me explicaram, depois).
Eu pensava publicá-lo neste blog imediatamente após o meu desembarque, ao conectar-me no hotel pela primeira vez. Em vez disso, tive uma surpresa: não conseguia acesso a nenhum de meus blogs, tampouco a vários outros sites, como relatei no post 112 (vide abaixo), "Confrontando a muralha da China, literalmente...".
Pois bem, já de volta a Brasília, e colocando em ordem todos os meus escritos desde o final de novembro e compatibilizando os arquivos do laptop com os do desktop, e tentando não perder nenhum, encontro, finalmente, esse texto um pouco ingênuo que compila algumas idéias preliminares ao meu desembarque. Tentarei, proximamente, compilar também minhas reflexões ex-post, ou seja, pós-visita à China, o que compreende Shanghai e Beijing (sorry, prefiro essas fórmulas mais universais à transliteração brasileira, que encontro inadequadas).
Farei assim que encontre tempo nos meus afazeres profissionais, acadêmicos e pessoais (ainda tenho dois ou três textos para terminar antes disso).
Por enquanto, fiquem com essas breves observações ex-ante...
(Brasília, 14.12.2009)

Carta de Shanghai, 2:
Em Shanghai, pela primeira vez…

Paulo Roberto de Almeida
(escrito em vôo: Paris-Shanghai, 29.11.2009)

O que se faz quando se visita uma cidade pela primeira vez? Obviamente, munir-se, com a antecedência adequada, de guias turísticos, mapas e outras informações úteis à estada na cidade em questão.
Foi o que fiz, parcialmente, em relação a Shanghai. Eu já tinha comprado, em Paris, em minha estada do final de setembro, um guia Lonely Planet da China, que possui um bom capítulo sobre Shanghai (eventualmente complementado, para outras informações atualizadas, por uma visita ao seu site).
E o que se faz quando, além de não conhecer a cidade, não se tem o mínimo conhecimento da língua do país (no caso da região) em questão? Bem, é o caso de se apelar para guias lingüísticos e outros livros de viagem que permitam contornar, de maneira muito deficiente, é verdade, essa quase intransponível barreira da língua. Ainda não me julgo habilitado a fazê-lo, inclusive porque o livrinho que trago comigo traz frases elementares, mas nada diz sobre a pronúncia, que dizem ser importante no caso chinês (e seus vários dialetos).
Conclusão: sou um completo ignorante de Shanghai e não acho que me tornarei um connnaisseur nos próximos quatro dias que passarei na cidade (ainda mais num hotel internacional como o Portman Ritz Carlton, uma das torres famosas da cidade, listada no Shanghai Wallpaper City Guide. Assim, tentarei, com a ajuda do nosso Consulado – cujo cônsul, Embaixador Marcos Caramuru de Paiva, acabo de encontrar no mesmo vôo em que estou – aprender um pouco mais sobre a cidade e a China, o que sempre será insuficiente e a todos os títulos parcial, cela va de soi.
Sou um devorador de mapas, e um nômade compulsivo e incorrigível, assim que não tenho nenhuma restrição em alugar um carro e percorrer a cidade a esmo, ou guiado por um GPS, mas creio que, por necessidade de trabalho, terei de renunciar a esses prazeres turísticos e me ater à programação preparada pela Apex para nossa estada em Shanghai: reuniões de coordenação, encontro com os burocratas chineses, jantar com os outros comissários latinos em Shanghai Expo – sim, esqueci de dizer que estou sendo designado comissário brasileiro à Exposição Universal de Shanghai 2010, que se realiza de 1o. de maio a 31 de outubro de 2010 – enfim, um monte de encontros programados que provavelmente não comporiam o meu programa pessoal de first acquaintance with Shanghai. Rendo-me ao programa oficial, mas vou procurar conhecer a cidade como um cidadão do mundo, não como um turista ocasional, o que compreende museus e também locais para se viver, posto que aqui estarei entre abril e novembro de 2010.
Se existe uma coisa pela qual sou fanático é aventura, desbravar estradas e cidades desconhecidas, seguir mapas sem sequer ter a menor idéia do que vem pela frente, arriscar-me em pistas pouco usuais, confrontar-me à amplidão das estradas e dos desertos, encontrar uma placa, qualquer placa, que indique um destino superior a 2.000 kms, nomes desconhecidos, promessas imaginárias, enfim, qualquer coisa que fuja ao habitual costumeiro, que me coloque em encruzilhadas indevassadas, lugares incógnitos, coisas nunca dantes percorridas, a completa incerteza. Bem, confesso que Carmen Licia não me deixa fazer essas loucuras – como, por exemplo, atravessar o deserto do Atacama no carro vagabundo que é o nosso – mas não deixo de registrar o meu desejo de fazer essas coisas pouco convencionais (talvez eu deva comprar um desses carros mais bem equipados, um jipão poderoso, para enfrentar aventuras, mas ainda assim, creio que Carmen Lícia, sempre dotada de bom senso, barraria essas loucuras sem tamanho que mantenho presentes, como se eu ainda tivesse 19 anos). Mas, vou fazer um dia, se é que me acreditam.

Bem voltando a Shanghai, talvez eu devesse corrigir o título desta carta, pois ainda não estou em Shanghai, e sim no vôo para Shanghai, sem a menor idéia de como será minha estada naquela cidade enorme, numa conurbação de mais de 18 milhões de habitantes, com uma grande população estrangeira e milhões de chineses “flutuantes” (que imagino sejam todos aqueles camponeses emigrados que vivem de trabalhar na construção civil, sem residência fixa e sem muito planejamento).
Mesmo sem conhecer absolutamente nada da cidade, arrisco aqui alguns palpites, antes de desembarcar: Shanghai é uma cidade vibrante, apenas atrás de New York em número de arranha-céus, milhões de shoppings, milhares de restaurantes de todos os tipos – desde os mais sofisticados até aqueles que apenas chineses do interior freqüentariam – com todos os serviços possíveis e imagináveis e, se calhar, com todas as ofertas do capitalismo avançado (ou seja, onde você pode encontrar o DVD do último filme de Hollywood antes que ele seja sequer lançado nos EUA e esteja nas ruas e lojas de New York). Sem ter ainda desembarcado na cidade, arrisco dizer que ela é muito mais capitalista e competitiva do que São Paulo, muito mais sofisticada que a maior parte das capitais européias, e provavelmente mais sórdida (em suas imensas periferias) do que algumas cidades do Terceiro Mundo. Enfim, uma cidade que merece esse nome, e por isso desejo conhecê-la bem, se for possível melhor do que São Paulo ou Brasília.
Meu primeiro contato com Shanghai será necessariamente superficial e insuficiente, mas espero ter uma idéia do que é a cidade, e de como ela funciona, nos próximos quatro dias, preparando uma nova estada preliminar em janeiro ou fevereiro, antes do deslocamento definitivo em final de março ou começo de abril, quando ela será a “minha cidade”. Tenho as melhores expectativas sobre esse séjour temporário, que aliás deve ser cumprindo apenas parcialmente na cidade, posto que pretendo viajar muito durante essa estada em Shanghai.
Bem, depois de três copos de vinho, e um de conhaque, creio que preciso dormir, para enfrentar um dia de trabalho na grande cidade chinesa. Sou grato a todos os guias que me auxiliaram na tarefa de tentar conhecer um pouco melhor a cidade e suas peculiaridades. Ainda preciso fazer uma visita ao Embaixador José Oswaldo de Meira Penna, que esteve em Shanghai por duas vezes antes da implantação do regime comunista na China, o que tenciono fazer desde minha volta a Brasília. Até lá, vou coletar minhas impressões que serão aqui postadas, como faço com os mais diversos matérias que vou compondo.
Vale!

Paris-Shanghai, 29 novembro 2009.